Rosas ao redor – Prequel

zumbi2Pairava o cheiro suave de rosas ao redor do quilombo. Apoiado em um jequitibá, diante de uma paliçada, Santo levanta o semblante triste, e então quase cai, apoiado nos joelhos. Logo que consegue novamente se por de pé, apoiando-se novamente na árvore, ergue a mão direita aos céus e o cheiro se espalha por todo o lugar, sendo nitidamente percebido por cada ser humano nas redondezas daquele vale. Os olhos estavam fechados, para que seus outros sentidos pudessem perceber o que estava oculto à sua visão, e por esse motivo ele percebeu o vulto, logo atrás de si, um índio. Ele se aproxima do homem, seu tutor e amigo, mas não sorri, muito pelo contrário, parece estar sofrendo.
-Mestre… Você é capaz de entregar a vida por seus deuses, mas me parece não saber preservá-la para o momento certo!
Santo se vira com dificuldade na direção do homem, e fala com a voz aveludada.
-Lembra de minhas primeiras palavras a você? Não é minha missão entregar minha vida. E não somos inimigos para que considere minha morte, pitiguara. Não encerro dentro de mim todas as questões, pois muitas das respostas que procuramos estão dentro de você.
Pitiguara se aproxima e senta-se próximo ao guerreiro.
-Então me ajude a encontrá-las.
-Meu filho, minha responsabilidade é proteger Jaciara, e a sua é proteger os homens, você sabe muito bem o caminho que escolheu. Santo responde, como um conselheiro faria diante de um discípulo confuso. E o mestre continua sua explicação.
-É verdade que não há nada que faça com que o mal pare de ser disseminado na terra. E todos os homens por ele são tocados, em maior ou menor grau. No entanto, há uma fonte de onde o mal emana, e você foi escolhido filho… Chegou a hora em que o bem militará contra o mal.
Pitiguara parece não entender, e continua curioso.
-Eu sei que existem ladrões, assassinos, pessoas que enriquecem às custas do sofrimento alheio… Pessoas que se vendem, que são mentirosas e pérfidas… Mas não consigo entender como isso tudo pode emanar de uma única fonte.
-Compreenda a natureza de nosso embate. Você é poderoso, jovem… Quem sabe se poderia me derrotar…
Nesse momento Santo abre os olhos, e Pitiguara(apesar de imediatamente se erguer e tentar algum movimento de defesa) é arremessado contra outra árvore próxima. A pintura do jovem se borra, seu corpo se suja com as folhas espalhadas pelo chão no qual ele cai, quase inconsciente. O mestre caminha até ele, um sorriso de compaixão expresso em seu rosto.
Vá aborígene. Interceda por Jaciara da forma que seu entendimento lhe permitir. Eu estarei ao seu lado combatendo, quando for a hora. Enquanto isso, interceda… Tenho certeza de que está próximo o dia em que poderá enfim me derrotar. E nesse dia haverá um novo guardião para qualquer quilombo, Jaciara estará segura.
A consciência de Pitiguara aos poucos vai se dissipando, suas forças não resistiriam ao poder de seu mestre. O cheiro de rosas lhe invade trazendo lembranças. Alaor chega ao lugar, a tempo de ver o poderoso Santo tomar o jovem nos braços e levá-lo para dentro.
-Santo, problemas com o rapaz?
O guerreiro sorri novamente.
-Não, onça… Aqui nós temos a solução.