Rosas ao redor – Parte 01

Os olhos de pitiguara se abrem lentamente, e a escuridão aos poucos vai se transformando no resultado da luz que seus olhos captam… Imagens de uma Deusa… E a luz brilhante atravessando-a em uma mistura de cores perfeita. um vitral decorando a clarabóia de uma igreja. Pitiguara olha ao seu lado, arco, flecha e facão estão ali, como se aguardassem seu dono. N.S.MOEMAEle se ergue e vê um padre entrando no confessionário, a chorar, e no altar do templo a imagem da deusa branca em enormes proporções. Pitiguara caminha lentamente até a gigantesca imagem, e baixa o semblante diante dela. Então toma suas armas e sai da igreja, a passos lentos. Passam-se alguns minutos até que chegue a uma taverna e peça por água. Ele observa o sol e entende que logo a noite cairá, e lembra que não fazia idéia de quanto tempo se passou desde que foi derrotado por seu mestre na casa de Jaciara.

Parece que perto dali está acontecendo alguma procissão, o que desperta a curiosidade do índio: -taverneiro… Poderia me dizer que dia é hoje? O índio tenta esboçar um sorriso, mas percebe que isso é muito difícil para ele. Pitiguara era um guerreiro inconformado com as injustiças daquele mundo, a ponto de ser-lhe dificil expressar um simples sorriso.
O taverneiro, homem branco, tinha dificuldade em compreender a fala de pitiguara, mas respondeu servindo-lhe além da água um pouco de farinha de mandioca. Falou um pouco mais alto por causa do canto da procissão que passa na frente da taverna. Mesmo assim esforçou-se em ser simpático, boa voz de se ouvir.
-Sim, é claro… Dia três de março, uma sexta-feira quente.
Pitiguara balança a cabeça positivamente. -Sim, sim… Muito obrigado.

Parece fantástico o cuidado do mestre para com o índio. Havia deixado o rapaz perto de seu povo, apenas alguns dias depois da luta, e restituíra-lhe as armas. Pitiguara observa o arco a seu lado, e finalmente surge seu primeiro sorriso autêntico desde o momento que acordara na igreja. O taverneiro o observa, e acha belo o carinho que o jovem tem pelo arco a seu lado.
-Um belo trabalho, esse arco.

O índio “acorda” surpreso com a curiosidade do estranho, e se sentindo tanto quanto honrado pelo fato de um branco lhe dirigir a palavra, responde devagar, para que fosse entendido.
-Bem… Isso aqui é um presente que recebi de meu mestre, sou um praticante das artes desta nossa terra.
-Nossa! O branco responde. –Não vivo aqui de bom grado, mas quem sabe eu possa aprender algum dia.
Pitiguara parece se descontrair com a curiosidade do branco.
-Para quando esse dia chegar, entrego-lhe uma flecha de meu arco, que tanto aprecias. Use-o para sua caça e eu saberei.
-Obrigado!

Os cabelos negros do indígena lhe cobrem a visão, no que um vento úmido de final de tarde alcança o interior do lugar. Pitiguara se levanta calmamente e resolve abandonar o lugar, o cheiro de carne queimada já estava lhe enjoando… E ele precisava dormir um pouco, tinha muitos músculos doloridos do último combate. Chegando na porta olha para trás e seus olhos negros encontram os de uma jovem mestiça. Ela oferece um sorriso amargo em resposta, mas logo se vira para o homem com o qual o índio conversava a alguns instantes, e discutem severamente. Eles movimentam os lábios, mas a distância e a procissão fazem parecer que não emitem som.