Rosas ao redor – Parte 03

Pitiguara caminhou cerca de um quarto de hora pelas ruas daquela cidade, até que alcançou o limite das terras de seu povo. O lugar trazia memórias agradáveis ao índio. Brincadeiras de luta com seus amigos de infância o tinham conduzido ao caminho das artes de sua terra, e a partir daí seu talento o levaria até o quilombo onde seria testado em meio a vários outros jovens. Mas pitiguara era espirituoso e tinha uma grande ligação com o divino, porque seu pai era um homem religioso, e isso diferenciava o indiozinho de todos os outros meninos em meio aos árduos treinamentos. Com a queda de dois discípulos do poderoso Santo, dois meninos seriam selecionados para um treinamento especial, ministrado pelo próprio. Haviam vários meninos com maior habilidade que pitiguara, que derrubavam muros com um simples golpe, ou que tinham habilidades sobrenaturais, entre vários outros dotados do que hoje chamamos grandes poderes; mas Santo, logo que observou os candidatos, abaixou-se ao lado da criança-pitiguara.
-Está pronto para ser testado?

A luz do sol começava a diminuir tingindo o céu de vermelho, mesmo céu de quando o jovem índio foi conduzido pela primeira vez àquela casa humilde. Lembrava vivamente do momento em que foi deixado diante da porta, onde um senhor com a idade bastante avançada fumava um cachimbo, enquanto observava atentamente os passos do jovem.
-Seja bem vindo pitiguara. Pelo visto cresceu bastante hein… Já está um homem! Quinze anos certo?
Surpreso em ver o rosto familiar, o jovem sorriu ao ouvir as palavras do velho, e aproximou-se deixando aos pés do homem seu arco.
-Cresci mesmo? Parece que foi ontem, quando eu brincava no jardim de meu pai. Hoje eu trouxe meu arco, pra você ver minha conquista.

O homem observou a arma, inclinou-se na direção dela e derrubou um pouco de cinza do cachimbo sobre a mesma. -Sabe garoto, não estou em sintonia com símbolos de poder. Prefiro os de sabedoria, e há alguma em seus olhos! Encontrou um bom mestre, correto?
-Sim, sim tio… O melhor deles! Mas não sei bem ao certo o que fazer com tanta coisa que aprendi. Não tem muito trabalho para um lutador aqui nessa casa, né?

Tio Daniel sorriu, era uma boa pessoa. A ingenuidade de pitiguara era tocante.
-Então pitiguara, seu caminho é este. Entre, descanse e depois que acordar tome um chá comigo. Combinado?
-Tudo bem tio Daniel, combinado.

Os dois finalmente se abraçam, e então o índio entra na casa, caminha até o quarto e finalmente cai na cama, dormindo profundamente.
Um rosto moreno. Lábios sorridentes, carnudos, cabelos pesados feitos de cachos. Era uma Deusa. Era o rosto incrivelmente perfeito de Jaciara.
-Está pronto para ser testado?
lau