Deseducar agora e antes

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O Tauá foi meu bairro durante décadas, e eu amava a escolinha municipal Sun Yat-Sen. Ali naquele mundinho azul (acho que hoje pintaram ela de rosa) cantávamos o hino nacional toda segunda feira. Tínhamos três professoras no antigo primário, uma era responsável pelos estudos sociais, outra pela língua portuguesa e a terceira pela matemática. Decorávamos a tabuada. Fazíamos cópias sucessivas, e a brincadeira era competir para saber quem terminava primeiro de escrever. Nos estudos sociais tínhamos que aprender os hinos, e assim aprendemos o hino à bandeira, da proclamação da república etc. Engraçado como em minha memória tais lembranças são doces, como respeitávamos e amávamos nossas professoras. Como era uma grande aventura atravessar a avenida paranapuã todas as manhãs! Ensaiávamos danças para as datas comemorativas, como pequenos soldados, mas ninguém ficava chateado exceto os meninos que acabavam tendo de dançar com as meninas “menos populares”, sem saber que dali a alguns anos a situação poderia se inverter.

Os modos de educar e aprender mudaram. Muito. Não sei se para pior. Sei que vejo professores apanhando na televisão e não consigo sequer conceber isso acontecendo naqueles dias encantados. Será que melhoramos ou somente chegam a mim, através da mídia, os aspectos negativos e que dão maior “ibope”?

Já que falamos de televisão, entendo que aprendemos muito com a mídia. Sei que não tem como frequentar a escola sem que se aprenda nada. Antigamente aprendia-se muito na rua, soltando pipa, brincando de “pique tá” e jogando bolinha de gude “na vera” ou “na brinca”. A principal responsabilidade era dos pais. Talvez hoje as prioridades tenham trocado de lugar. A vida acadêmica, por exemplo, está centrando-se no ego. Alguém aí quer (ainda) melhorar o mundo? Melhorar o Brasil? O que vejo é a busca de aperfeiçoamento do “eu”, e que nos esforçamos em nos “globalizar”, uma desculpa moderna para o velho complexo de vira-latas.

A faculdade ensina, mas fiquei assustado quando um funcionário público me contou (aos sussurros) que tem muito formando em letras que não sabe ler corretamente. Será verdade? Eu mesmo aprendi muita coisa correndo atrás dos professores que me pareceram realmente entender os assuntos sobre os quais tenho interesse. Ah, e que queriam transmitir esse conhecimento. A partir desse ponto corri atrás de livros, de artigos, teses… Fiz perguntas, obtive respostas, a maioria delas fora da sala de aula.

Não sei onde vamos parar, mas parece que “estamos” desistindo de educar. Aos poucos, silenciosamente.