Zico!

Texto de Adriano Melo, em http://flamengonet.wordpress.com (22/11/2012)
1983 mar
É um domingo pós-carnavalesco. A cidade em festa com o campeonato da Mangueira, cantarola “tem xinxim e acarajé, tamborim e samba no pé”. Eu, simpatizante da Beija-Flor desde sempre, ando aos muxoxos com o título perdido por conta de uma nota maldosa de um jurado recalcado, mas reconheço o grande desfile da verde-rosa. Está em boas mãos, e além disso, a cidade fica mais alegre quando a Mangueira ganha.

E o Rio de Janeiro alegre sempre traz bons presságios.

Aboleto-me ao lado de meu pai, radinho ao ouvido. Vai começar a temporada, e logo de cara um Fla-Flu, poucas semanas depois do jogaço que parou a cidade, do épico que terminou com o sobrenatural gol do Leandro.

Mas dessa vez Zico vai jogar.

O Fluminense cheio de marra, tricampeão, cronista apressado decretando o início de um “império de mil anos”, jogadores medianos (peças de um bom conjunto) elevados a craques, alguns fazendo beicinho por terem sido esquecidos por Telê, que já chamou seu elenco para a Copa.

Mas hoje tem Zico.

Meu pai sempre cético desconfia, não sei se aguenta, deveriam botá-lo num joguinho mais mole antes. Vou concordando enquanto espero tendo o jogo, os argumentos são racionais e lógicos, mas lá no meu simples âmago de garoto eu sinto que esse não será um jogo qualquer. Zico foi xingado, humilhado, a cidade inteira desconfia, uns chamam-no bichado, outros pecham-lhe comedorme. As ofensas mais pesadas partem de gente do Flamengo, dirigente e torcedor “organizado”. Calado e desarmado, Zico apenas absorve, assimila, canaliza sua raiva para as lancinantes sessões de terapia e musculação que tentam proteger seu joelho de papel.

Não, hoje vai acontecer alguma coisa. Ninguém vai sair ileso desta tarde.

O torcedor comum, aquele que não precisa de mesada para apoiar ou vaiar, acredita. E mesmo na ressaca carnavalesca, lota o Maracanã. O radinho grita os ruídos do estádio, salta, berra, e mesmo sem entender sinto-me pleno de esperança e da surda certeza da vitória, inebriado pela doce e triunfal atmosfera emanada por um Flamengo vencedor. Toda a expectativa se esvai, agora sei que o show vai começar.

E tem início o espetáculo.

E o radinho começa a me contar uma linda história, passa a narrar como um único jogador está pairando sobre todos os outros cem mil mortais, felizes testemunhas de uma obra divina, um quadro de luxuriantes e vívidas cores sendo pintado com os pés mágicos de Zico. Estarrecidamente alegre, apenas me deixo levar pelos superlativos adjetivos que escorrem de meu boquirroto companheiro, que já desistiu de narrar o jogo, agora apenas elogia, exalta, canta servis hinos de lealdade ao eterno rei.

Agora apenas fecho os olhos e apenas imagino um monstro driblando todo mundo, metendo bolas doces, dando passe de bicicleta, chutando bola na gaveta, fazendo coisas paradisíacas e só possíveis em meu inocente e mágico mundo juvenil. As loas do radinho agora são a trilha de fundo para meu lírico sonho desperto.

Os gols brotam, um, dois, quatro. O super-mega-master-tricampeão é colocado em seu lugar de coadjuvante, sua bichada torcida vai deixando o estádio de fininho, elegante em seu lombo dolorido, e o radinho canta o verde-rosa xinxim e acarajé em cem mil vozes. Andrade, Adílio, Jorginho, Leandro, Mozer, Bebeto e o estreante Sócrates são reduzidos a mera claquete, elenco de apoio do astro maior. Zico, em noventa minutos, destrói uma hegemonia, um tricampeonato e decreta que o Rio de Janeiro volta ao seu dono de direito. E o jogo acaba, e o estádio dança, e abro os olhos e contemplo o sorriso feliz e orgulhoso de meu pai.

Ansioso, bebo o néctar da goleada enquanto aguardo o teipe da tevê. E agora a cores, vejo que a exibição de Zico é algo que transcende qualquer fantasia, qualquer sonho exuberante que já vivera. Anestesiado, percebo que a realidade pode, sim, ser mais fantástica do que os devaneios da nossa imaginação. E me contemplo lambuzado de felicidade.

Nenhum pio, nenhuma declaração bombástica, nenhuma dedicatória aos desafetos. Após a obra-prima, a resposta de Zico são lágrimas, o úmido choro dos vencedores. Depois de protagonizar talvez a maior exibição individual da história do Maracanã, o titã apenas chora, toma seu banho e vai para casa. Também está feliz, como qualquer torcedor. Afinal, seu Flamengo ganhou de quatro.

* * *

Zico é um desses grandes homens que aprendemos a estudar cedo, nos livros de história. Por ele já se compuseram canções, ergueram estátuas, rodaram filmes. E grandes homens são capazes, enquanto viverem, de grandes obras. E grandes empreendimentos sempre irão incomodar mentes e corpos compromissados com a mediocridade, as questões comezinhas, os queromeus que corroem instituições.

Por isso, não é estranho que sua imagem seja assacada por porcos e bactérias. Séquitos de áulicos entregam-se a uma ofensiva e ávida bajulação, buscando receber mais algumas cotas de ração ou algum caco de medalhinha por bons serviços. E cospem impropérios, camuflam verdades, inventam factóides, tentam calar cantos e coros, queimar livros e bandeiras, esconder a história. Porque o projeto de um Flamengo forte e exercendo sua colossal vocação para a grandeza é incompatível com as aspirações das hordas e corjas de vermes que se locupletam secularmente de sua grandeza. Nada pelo Flamengo, tudo do Flamengo.

Uma boa semana a todos.