Sobre “Tronos e predadores”

Não sei se isso é coisa de poeta, escritor ou estudante de letras, mas sabe aquelas músicas que você guarda porque acha impossível que tal momento de inspiração volte a se repetir durante sua vida? É o caso da música “Tronos e predadores”, feita pelo amigo Cliver (link para o blog dele ao lado -Horizonte Hostil-), que muito respeito. Acho que todos os amigos compositores que conheço acabam compondo um clássico e das composições do Cliver, essa música pode ser considerada postulante ao título!!

Esse texto se propõe a dar uma breve cafungada (ou chafurdada) em alguns poucos-muitos versos da letra, e para concluir vou levantar alguns deles que aprecio e comentá-los. Vamos aos primeiros quatro:

É quase um crime te tocar
Quase uma execução
Guardo em mim o rastro
do que resta em fragmentações.

O nível da conversa aqui é o do sentido táctil. Digo conversa porque nosso narrador está claramente dirigindo-se a alguém que é objeto de seu tocar. Independente do toque realizar-se ou não, o foco é a premissa proibitiva com relação a esse ato (o tocar). Temos bem distintas as cores do verso: um criminoso, uma vítima e a norma que estabelece essa relação.

Vamos focar no papel do narrador, o cara que está contando a história. Essa norma estabelecida logo na primeira frase faz com que ele sinta-se culpado. Aí a grande sacada da música se apresenta, porque se com “o crime de tocar” o narrador é vítima do próprio desejo, a palavra execução coloca o narrador também na posição de vítima dessa norma! Não se pode tocar, pois o tocar invoca algo terrível que deixa marcas (rastro), deixa o narrador esgotado (o que resta) e finalmente é capaz de despedaçá-lo (fragmentações). O jogo de gato e rato que percorrerá os versos se apresenta: Ele não pode tocar, se tocar se tornará executor e ao mesmo tempo sofrerá uma execução, se machucará, ficará cansado e até mesmo despedaçado!

E mesmo que os exércitos
tomem seus subúrbios
encontro meu refúgio
entre tronos e o predador

Nos próximos quatro versos o nível da conversa muda, com termos mais amplos como exércitos e subúrbios, quando o narrador procura justificar suas intenções em comparação com o todo, submetendo-se sozinho à situação de ficar preso entre seu desejo e sua condenação, diferente de possíveis outros candidatos. Apresentam-se claramente os dois pólos da música, que sugerem uma perseguição: tronos são estáticos (uma meta à qual se deve aspirar), predadores caçam. Tronos representam um tipo de poder muito restrito, predadores representam outro tipo de poder, que precisa nos devorar para sobreviver. Nosso narrador foge o tempo todo e corre atrás de algo utópico ao mesmo tempo. Não dá tempo para pensar assim. Não tem intervalo, parada.

Depois dos primeiros oito versos é descrita a tentativa de escapar da arapuca de estar amando essa interlocutora tão confusa, mas o cara é brabo e insiste nela. O suplício do eu-lírico se prolonga quando ele procura em outras pessoas o toque “proibido” daquela que ama e o aprisiona. A prisão se revela maior que o limite do corpo, e persegue o narrador durante suas tentativas de renunciar ao desejo.

Entrego-me ao cárcere
Deixo-me guiar pela fraqueza
E a triste condição
De encontrá-la em outros corpos
Onde não sinto seu gosto
Somente tal sincera angústia
De desejar nossa distância
Quando desejá-la em mim
É mais forte que a renúncia

Trata-se da história de uma paixão regulada pela prisão à qual nossas crenças podem nos conduzir. Coitado de nosso eu-lírico, quando a regra de vida de sua amada a impulsiona à rejeição de si mesma. É paradoxal, mas apesar de criticar o afastamento abstrato de sua amada, o motivo para a paixão do narrador envolve uma esperança que beira a religiosidade, talvez o motivo desse amor (dessa adoração pela amada) tão grande, que ele expõe nos versos: seremos outros/seremos sóbrios/serenos e cândidos/ainda que as nossas diferenças sejam idênticas.

No final da música temos uma breve reviravolta, e refletindo sobre essa situação tão lamentável em que se meteu, chega-se à conclusão brilhante: não há como acreditar em nós/quando tronos e predadores são/nossas fontes mais lúcidas. Agora que conseguiu parar para pensar, segue-se a revolta contra a norma instituída: sua república/se ergue eminente/em lamentações e rascunhos/de poesias líricas/sonhos cálidos/anjos e signos.

Revelando um painel de relações claustrofóbico, complexo e bonito, Tronos e predadores é uma música bem diferente das porcarias pós-modernas que ouvimos hoje em dia, é uma música que merece ser lida e ouvida.