A mulata do frade

PenasDiz o licenciado Rabelo (o primeiro estudioso da obra atribuída aGregório de Matos e Guerra – O Boca do Inferno) que essa singela poesia foi feita “em homenagem” a um frade que “estava de más intenções” com uma mulata vizinha do convento (o nome dela: Vivência), e ficava vigiando-a do campanário. rsrsrs

1.
Reverendo Fr. Sovela,
saiba vossa Reverência,
que a caríssima Vivência
põe cornos de cabidela:
tão vária gente sôbre ela
vai, que não entra em disputa,
se a puta é mui dissoluta,
sendo, que em todos os povos
a galinha põe os ovos
e põe os cornos a puta.

2.
Se está vossa Reverência
sempre à janela do côro,
como não vê o desafôro
dos Vicêncios co’a Vicência?
como não vê a concorrência
de tanto membro, e de tão vário,
que ali entra de ordinário?
mas se é Frade caracol,
bote êsses cornos ao sol
por cima do campanário.

3.
Do alto verá você
a puta sem intervalos
tangida de mais badalos,
que tem a torre da Sé:
verá andar a cabra mé
berrando arás dos cabrões,
os ricos pelos tostões
os pobres por piedade,
os leigos por amizade,
os Frades pelos pismões.

4.
Verá na realidade
aquilo, que já se entende
de uma puta, que se rende
às porcarias de um Frade:
mas se não vê de verdade
tanto lascivo exercício,
é, porque cego do vício
não lhe entra no oculorum
o secula seculorum
de uma puta de ab initio.

Um comentário sobre “A mulata do frade

  1. O que era posto embaixo do tapete, só era do conhecimento publico quando alguém de coragem escancarava através da escrita e o texto era publicado e distribuído. Hoje, depois de séculos, continuamos com medo de escrever o que vivenciamos no nosso dia a dia. Infelizmente.

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