O insaciável vício dos sentimentos

Descobri que sou viciado em sentimentos. Como a vida é esquisita quando eu não tenho nada intenso para sentir… Nada me satisfaz mais que uma briga, um desentendimento, o grande amor, uma necessidade desesperada, a ansiedade diante de um grande evento que se aproxima. Hoje a ansiedade virou doença, ninguém quer experimentar expectativas. Queremos tudo pronto, entregue na porta de nossas casas, e o resultado disso é o vazio das relações pessoais, a ausência de poesia. Admito, sou um amante da vida, e desculpe o tom amargurado do texto.

images

Esse amor à vida deve ser a razão de minha revolta ao acompanhar a pseudovida sem rostos que acontece no telefone, a vida-digitada desprovida de som dos e-mails ou as ilusões ultra-imagéticas e superficiais dos blogs e da timeline voraz por curtidas do “feicebuqui”… Os bizarros grupos de interesse das redes sociais, formados por estranhos com gostos em comum, acabam tornando-se clubinhos fechados onde se escolhe quem serão os excluídos na “real life”. Quanta ingenuidade procurar vida onde ela não existe. Que raiva, o que se pode esperar quando as coisas estão acontecendo por meio de impulsos elétricos? A suavidade dos perfumes desapareceu completamente. Que merda…

É engraçado imaginar que eu, uma pessoa que tem seu blog e sempre está online no “feicebuqui”, com o email aberto, fique irritado com isso. Ah, caramba! O que todos nós precisamos mesmo é de respiração, contato (e rostos, vozes, cheiros!). Talvez estejamos na internet porque não está dando para viver direito a vida, e quanto mais “internet” estivermos, mais difícil está o viver: eis minha prisão, esse poço sem fundo! A certeza de que precisamos sim dessa respiração, desse contato (ainda que mínimo),  se confirma na necessidade de estar em eventos da faculdade, recitando poesias minhas e dos outros, passando o maior perrengue para apresentar algum trabalho, mas feliz da vida por encontrar ali indícios (fortíssimos) da naturalidade própria à vida. Uma primeira braçada para fugir da superfície, prévia de um futuro e maravilhoso mergulho.

Deveria ser óbvio: viver é erguer os olhos do Whatsup e descobrir o mundo. Eis a maneira ideal de satisfazer meu vício.

Giovani Gomes

Mestrando em literatura brasileira da Universidade do Estado do Rio de Janeiro(UERJ).