Rosas ao redor – Parte 06

Quando Telo chegou à reunião, logo foi interpelado:

-Senhor, preciso descansar, fiquei de guarda outra vez noite passada.

-E porque não passou a guarda?

-Estavam todos muito cansados da viagem.

-E porque não acordou ninguém?

-Tentei, mas não consegui. Acham que aquela escrava vai aparecer de novo. É sempre na última guarda. Senhor, eu também não quero morrer! Quero subir a serra, ver meus filhos.

-Não, não. Nada de descanso, homem. Deixe de ser idiota e procure fazer sua parte e não a dos outros. E quando chegar a hora, PASSE A GUARDA!

Crepitava a fogueira no centro do acampamento. Todos ouviam sentados o que Telo dizia, depois do contratempo com o subordinado. Erguia o indicador na direção de um mapa improvisado no chão, usando gravetos e terra.

-Quero três grupos: um vem comigo, atacando de frente. O pessoal da Maria já pode ir se acostumando com o Alberto, porque de hoje em diante quero Domingos comandando um grupo junto com ela.

Maria era uma jovem guerreira, andava com os homens e vestia-se como eles. Comia como eles. Os farrapos e paramentos que usava a cobriam, e nenhum deles a tratava como o que realmente era, mulher. Era habilidosa e feroz no combate, e ela era diretamente responsável por centenas de negros da terra que foram capturados e vendidos. Senhora da selva, diziam. Ela tinha o respeito de todos na medida suficiente para que pudesse se manifestar. Ergueu-se, mas foi ignorada. Telo continuou.

-Alberto, é pra subir o morro e cair por esse lado. O resto do pessoal dá a volta com Domingos e Maria.

-Porque perdi o comando?

Telo finalmente olhou para a mulher.

-Quero você com o Domingos. Não ralhe. Ele se recuperou, mas não sei… A flecha vermelha quase o matou.Você não perdeu o comando, pode ser que seu grupo tenha que se dividir.

-Mas passou o comando, passou meus homens.

A discussão prosseguiu, até que finalmente, apesar da indignação de Maria, a vontade de Telo se confirmou. A reunião finalmente acabou e todos foram procurar algum descanso antes do último dia de viagem até a empreitada. Menos Maria. Depois da reunião a mulher mal se alimentou, e percebendo que o orgulho ferido não a deixaria dormir, caminhou até a barraca onde Alberto dormia. O jovem acordou, e percebendo quem era a visitante não demorou com a ironia.

-Nossa, que honra receber sua visita.

-Sem gracinhas Alberto. Não sei o que andou dizendo ao Telo, mas você sabe melhor do que eu que não é seu lugar.

-O que? Seus… “Homens”? Vai dormir, Maria. Você não vai me dar o que tem para oferecer, então não enche.

Maria olhou alguns momentos para ele, que simplesmente virou para o outro lado e logo começou a roncar. Teve a idéia e foi imediatamente até a barraca de Telo, que terminava uma prece diante da santinha que subia aos céus, antes de deitar-se.

-Telo…

O homem voltou-se, já esperando a retomada da discussão que imaginou terminada na reunião, e teve uma surpresa. O belo corpo de Maria. Sorriu. O sertão era árduo, e o homem não negaria uma noite de prazer.

Mais um dia de viagem e o ataque pela manhã: Maria subiu o morro para cair por um dos lados, Alberto e Domingos davam a volta por trás. Um sucesso. Depois que atacaram a aldeia, a guerreira percebeu um movimento nas árvores, os índios já estavam quase todos amarrados e não havia mais o que temer. Subiu o morro pelo qual havia descido durante o ataque, e sentiu. Rosas, rosas ao redor.

A onça é a verdadeira senhora da selva.