Rosas ao Redor – Parte 07

Ainda não estava totalmente escuro quando pitiguara ouviu passos atrás de si, e então, antes mesmo de alcançar o vale sentiu o cheiro novamente. Vieram à memória aquelas imagens que não eram suas, lembranças que o faziam sofrer. Porque? A chuva que se repetia todos os dias já tinha estiado antes mesmo que acordasse horas atrás, na igreja, e talvez por esse motivo seu olfato tenha falhado ali, pois não havia nenhum odor naquele lugar além do penetrante cheiro das rosas que parecia fluir de sua imaginação. Deveria voltar-se, para saber quem o seguia, mas o cheiro feriu seu espírito. Olhou por cima do ombro e lá estava a mestiça da taverna, séria, a encará-lo corajosamente.

-Quem vem lá?106

Pôs-se então de frente para ela. A moça trazia um arco à mão esquerda, e com a outra pegou da flecha, um ato imprudente, que alarmou o índio. Não teve tempo de reagir. Zuniu a flecha na direção de pitiguara, que traído pela situação inesperada, esperou que o projétil o atingisse e fechou os olhos. Seguiu o ruído surdo de corpo caindo ao chão.

-Eu… Vim em busca de mudança. Também quero aprender.

Ao ouvir a voz embargada, Pitiguara abriu os olhos, não sentiu dor, estava incólume. Atrás de si um homem estirado, de tez clara, bacamarte caído ao lado: paulista.

-Não a compreendo, mas obrigado por me salvar.

A mulher aproximou-se, cambaleando, até cair desacordada. O índio pegou a arma do inimigo, percebendo que estva carregada. Conhecia aquele engenho, e entendeu que poderia ser-lhe útil. Caminhou até seu destino levando mulher e arma, e logo que vislumbrou a aldeia um vulto familiar o saudou. Onça, que logo apontou para o bacamarte que pitiguara carregava.

-Os paulistas chegaram. Logo vão atacar, você sabe. Eu e Daniel lutaremos, mas você deve viver, por isso peço que volte para a cidade onde o deixei. Esconda-se lá, leve sua amiga se quiser, e encontre uma forma de me avisar para que eu o encontre.

-Eu vim ajudá-los, onça.

-Ajude a mestiça que está em seu ombro, acho que será o suficiente.

-Não sei quem é ela. Encontrei-a no caminho.

-Você tem responsabilidades, que advém do caminho que você escolheu. Trazer essa estranha aqui revela muito. Mas pense em Santo, e no que ele te confia: quem protegerá os homens do quilombo? Muitos deles estão lá na cidade, sendo ameaçados por causa daquilo tudo, lembre de Jaciara…

Enquanto conversavam ouviram-se os tiros, os paulistas lançavam-se sobre a aldeia de pitiguara. O índio deu um passo naquela direção e agora sim, percebera o que as rosas não tinham lhe permitido. Fogo. Alaor o impediu de avançar:

Fuja. Preciso que você esteja a salvo, fale com o padre e ele o ajudará.

Precisou de todas as suas forças para correr até a igreja, e encontrou as portas abertas e o padre aguardando. Com olhos tristes e semblante amável, o homem de Deus apenas sorriu, enquanto pitiguara sentou-se cansado. A mulher pareceu despertar.

-Bem, parece que meu dever é fornecer-lhes bom abrigo e disfarce. Não há lugar de honra para um índio e uma mestiça, mas podem ajudar-me com uma capela que construí na ponta da cidade. Precisarão ser um casal e usar roupas civilizadas.

(Rosas ao Redor está sem algumas partes, para evitar roubo. Caso se interesse, envie e-mail para joevani@gmail.com)