Jogo de interpretação e Literatura Brasileira, juntos.

Os sistemas de RPG lidam com personalidades de várias maneiras, e uma das mais comentadas/memetizadas são as oito tendências de D&D. Existem várias maneiras de ensinar a jogadores como funciona esse esquema, e me ocorreu que o contrário também pudesse ser usado: uma maneira de jogar e aprender a literatura que é escrita no Brasil, conhecer um pouco mais sobre ela. Talvez você se interesse por essas obras, mas lembre-se de que ler textos com 50, 100 anos ou mais não é a mesma coisa que ler Nicholas Sparks, ok? E sem complexo de vira-latas, gente! Ler sem vontade, sem mediação alguma, transforma qualquer um em chato (Frase da Prof. Dra. Andrea Werkema). Vejamos então as descrições das tendências no D&D 5.0, e a partir delas vamos pinçar alguns curiosos personagens da Literatura Brasileira:

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Diz a regra das tendências que com uma criatura Leal e Boa (LB) se pode contar para fazer o que é correto como é esperado pela sociedade. Um personagem que indiscutivelmente segue esse alinhamento, geralmente um mentor e conselheiro, é a Dona Benta do Monteiro Lobato. 

Lembrete: sempre que M.Lobato é mencionado, vale incentivar a pesquisa sobre os processos históricos que geram o racismo no Brasil, porque a leitura das obras do referido autor é delicada, por refletir opiniões hediondas do autor. Recomendo a Dra. Ana Maria Gonçalves, no que diz respeito ao tema.

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Já o Neutro e Bom (NB) é a tendência daquele que faz o melhor que pode para ajudar outros de acordo com suas necessidades. O exemplo mais icônico certamente está na obra de Lima Barreto, um escritor que literalmente enlouqueceu com a desordem de nosso mundo! O personagem em questão é o ingênuo Policarpo Quaresma, que na tentativa de salvar o Brasil acaba se condenando.

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Muito comum entre os jogadores de D&D, é a tendência das criaturas que agem de acordo com sua própria consciência, se importando pouco com as expectativas dos outros. Sim, ser Caótico e Bom (CB) normalmente é o que nossos jogadores querem. E essa tendência, encontrada em muitos heróis de ação, merece um de nossos heróis literários do romântico século XIX. A obra “O Guarani” transforma o índio Peri em avatar do heroísmo, lutando a todo custo para salvar sua amada.

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Bem diferente da tendência CB, é difícil que algum jogador escolha livremente interpretar um personagem Leal e Neutro (LN),  tendência dos indivíduos que agem de acordo com as leis, tradições ou códigos pessoais. Mas a literatura pode provar que um LN pode ser muito divertido! Basta observar um dos mais famosos personagens de nosso provável maior escritor até hoje, o queridíssimo Machado de Assis. Estamos falando de Simão Bacamarte, o psiquiatra que, tentando estudar a loucura internou quase toda a cidade, até que, por fim, internou a si mesmo!

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Claro que existe gente que abusa da indiferença, por isso existe a tendência daqueles que preferem manter distância de questões morais e não tomar partido, fazendo o que aparenta ser melhor conforme a situação, os Neutros (N). Existe um personagem da literatura brasileira que se encaixa perfeitamente nessa tendência, a bobinha Macabéa, da obra de Clarice Lispector, do livro A Hora da Estrela.

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É muito comum em nosso folclore criaturas que seguem seus caprichos, mantendo sua liberdade pessoal acima de tudo. A tendência Caótico e Neutro (CN) é a expressão que consegue defini-los, e não há nenhum personagem que se enquadre tanto nesse espaço como o preguiçoso e indolente Macunaíma.

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Chegamos ao lado mau da força, e a primeira tendência desse lado, Leal e Mau (LM), é a das criaturas que conseguem metodicamente tudo o que querem, dentro dos limites de uma tradição, lei ou ordem. Graciliano Ramos escreveu um personagem que se enquadra perfeitamente nesse estilo, usa a lei e não tem escrúpulos: Paulo Honório.

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Famosa tendência dos egoístas, o Neutro e Mau (NM) fará tudo o que quiser, sem compaixão ou remorso. O choque de culturas diferentes costuma oferecer esse tipo de visão, e a antropofagia dos índios timbiras, no poema IJuca Pirama é um bom exemplo disso. Eles querem devorar o inimigo, mas quando o inimigo se mostra fraco eles mandam o cara embora. Depois, quando o cara volta valentão e batendo em todo mundo, eles mudam de idéia e resolvem devorar o cara.

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E finalmente temos a tendência de criaturas que agem com violência arbitrária, estimulada por sua ganância, ódio ou sede de sangue. Sede de sangue é um tema recorrente nos contos de Rubem Fonseca, onde temos vários personagens violentos e que gratuitamente seguem o caminho do Caótico e Mau (CM).

Menção honrosa

Arte:Rodrigo Rosa

Eu escrevi lá no topo que Machado de Assis é nosso provável maior escritor, e explico dizendo que sou do time do Guimarães Rosa. Por isso, não posso deixar de mencionar o jagunço Riobaldo, que é também um cara que faz o que é preciso de acordo com seu código pessoal, o que pode o definir como Caótico e Neutro.

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