Jogo de interpretação e Literatura Brasileira, juntos.

Os sistemas de RPG lidam com as personalidades dos personagens de várias maneiras, e uma das mais conhecidas e comentadas são as oito tendências de D&D. Existem várias maneiras de ensinar a nossos jogadores como funciona esse esquema, e me ocorreu que o contrário também pudesse ser usado para que nossos jogadores, tão imersos nas regras e regulamentos de dezenas de RPGs, pudessem olhar por alguns momentos com carinho (e sem complexo de vira-latas) para a literatura que é escrita no Brasil, e conhecer um pouco mais sobre ela. Vejamos então as descrições das tendências no D&D 5.0, e a partir delas vamos pinçar alguns curiosos personagens da Literatura Brasileira:

lbDiz o famigerado sistema que com uma criatura Leal e Boa (LB) se pode contar para fazer o que é correto como é esperado pela sociedade. Temos dezenas de obras escritas no Brasil com a intenção alinhada à tendência LB, e provavelmente o principal escritor que o fez é Monteiro Lobato. Ele gostava muito de fábulas, mas seu principal personagem “conselheiro” sempre será a Dona Benta.

nbJá o Neutro e Bom (NB) é a tendência daquele que faz o melhor que pode para ajudar outros de acordo com suas necessidades. O exemplo mais icônico certamente está na obra de Lima Barreto, um escritor que literalmente enlouqueceu com a desordem de nosso mundo! O personagem em questão é o ingênuo Policarpo Quaresma, que na tentativa de salvar o Brasil acaba se condenando.

cbMuito comum entre os jogadores de D&D, é a tendência das criaturas que agem de acordo com sua própria consciência, se importando pouco com as expectativas dos outros. Sim, ser Caótico e Bom (CB) normalmente é o que nossos jogadores querem. E essa tendência, encontrada em muitos heróis de ação, merece um de nossos heróis literários do romântico século XIX. A obra “O Guarani” transforma o índio Peri em avatar do heroísmo, lutando a todo custo para salvar sua amada.

lnBem diferente da tendência CB, é difícil que algum jogador escolha livremente interpretar um personagem Leal e Neutro (LN),  tendência dos indivíduos que agem de acordo com as leis, tradições ou códigos pessoais. Mas a literatura pode provar que um LN pode ser muito divertido! Basta observar um dos mais famosos personagens de nosso provável maior escritor até hoje, o queridíssimo Machado de Assis. Estamos falando de Simão Bacamarte, o psiquiatra que, tentando estudar a loucura internou quase toda a cidade, até que, por fim, internou a si mesmo!

nClaro que existe gente que abusa da indiferença, por isso existe a tendência daqueles que preferem manter distância de questões morais e não tomar partido, fazendo o que aparenta ser melhor conforme a situação, os Neutros (N). Existe um personagem da literatura brasileira que se encaixa perfeitamente nessa tendência, a revoltante Macabéa. Essa menina, que está entre ser tapada e apenas ignorante, vem da obra de Clarice Lispector, do livro A Hora da Estrela.

cnÉ muito comum em nosso folclore criaturas que seguem seus caprichos, mantendo sua liberdade pessoal acima de tudo. A tendência Caótico e Neutro (CN) é a expressão que consegue defini-los, e não há nenhum personagem que se enquadre tanto nesse espaço como o preguiçoso e indolente Macunaíma.

lmChegamos ao lado mau da força, e a primeira tendência desse lado, Leal e Mau (LM), é a das criaturas que conseguem metodicamente tudo o que querem, dentro dos limites de uma tradição, lei ou ordem. Temos um personagem que se enquadra perfeitamente nesse estilo, usa a lei e não tem escrúpulos: Paulo Honório.

nmFamosa tendência dos egoístas, o Neutro e Mau (NM) fará tudo o que quiser, sem compaixão ou remorso. O choque de culturas diferentes costuma oferecer esse tipo de visão, e a antropofagia dos índios timbiras, no poema IJuca Pirama é um bom exemplo disso. Eles querem devorar o inimigo, mas quando o inimigo se mostra fraco eles mandam o cara embora. Depois, quando o cara volta valentão e batendo em todo mundo, eles mudam de idéia e resolvem devorar o cara.

cmE finalmente temos a tendência de criaturas que agem com violência arbitrária, estimulada por sua ganância, ódio ou sede de sangue. Sede de sangue é um tema recorrente nos contos de Rubem Fonseca, onde temos vários personagens violentos e que gratuitamente seguem o caminho do Caótico e Mau (CM).

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