Rosas ao Redor – Parte 10

A onça espreita.

Olhou para o chão, contra o qual se chocou uma gotícula de suor. Adiante, sobre a mesma terra, firmam-se seus pés. É Pitiguara, o índio. Mais alguns mínimos instantes e seu corpo está abaixado, remexendo o mesmo chão, plantas rasteiras. Ergue o rosto e sente o perfume leve. Rosas, rosas ao redor. Sorri confiante e entende o sinal, disparando pela mata à frente na direção que seu olfato apurado aponta.

Caminhava Onça por escombros. A aldeia batera em retirada, boa parte deles tinha morrido, e o restante procurou o refúgio de Santo, casa da ex-escrava caçada. Assim o resultado final já se desenhava, pois nessa terra os poderes servem a interesses muito específicos e a soma dos fugidos da escravidão com os fugidos do extermínio amedrontou senhores, amedrontou juízes. Pânico na casa grande.

Correu o índio, pela selva indomável, perseguindo seu sentimento, sua dúvida. Estancou repentinamente e sentiu o deslocamento do ar diante de seu rosto. Zum, uma flecha. Depois dela seu dono, e o ruído sonoro da borduna cega contra um tronco. Emboscada. Outra flecha. Ágil como poucos, estendeu a mão e agarrou cabelos de uma cabeça que nos próximos segundos custaria a reequilibrar um corpo. Uma garganta cortada e um passo rápido para trás. Terceira flecha. Arremessou a faca na direção de um arbusto, o que provocou um gemido surpreso. Nos adereços do inimigo abatido viu um cacho de cabelos. Laura. Berrou ensandecido. Mais uma flecha.

Santa Rosa, Costa Rica: A camera trap catches a Jaguar killing a turtle at night.  (Photo Credit: © Ammonite Limited / Trap cam)
A onça espreita…

Correu à cidade Alaor e viu que ali se reunia a tropa. Não mais paulistas, agora soldados. A diferença principal eram os uniformes e a diminuição de mestiços (que ainda eram maioria). Era dia 10 de novembro, e eles traziam nas mãos Jaciara, desenhada. E são tolos aqueles que pensam enganar olhos de onça, pois sua percepção sempre irá além do homem. Todas as peças estavam no tabuleiro. Os oprimidos, vítimas da violência, estavam escondidos e preparavam-se para lutar pelo direito de viver, de tocar suas próprias vidas, enquanto os opressores estavam a descansar em suas fazendas, pois eram proprietários não só de terras, mas de um sistema que colocava soldados para cuidar de seus temores. O massacre estava prestes a acontecer.

Olhou atentamente para os artilheiros e sorriu. Arcabuzes não abateriam a vanguarda do quilombo. Eles não sabiam, mas onça sabia. Agora bastava garantir que sua tarefa seria cumprida, pois sua responsabilidade maior era pitiguara: o poder de Santo deveria ser perpetuado. Mas ele não estava lá.

Caminhava agora Pitiguara, exausto. Ferido, sentia o cheiro de seu próprio sangue. Adiante um casebre de pau a pique, erguido no meio da selva hostil, e pela porta foi arrastada aquela que procurava. Amarrada e vendada. O corpo, que lutava desesperado para se libertar, ficou entre o índio e seu opositor, que ria.

A onça espreita.