amore

Sobre Añánga peábo

Eu seria tolo se dissesse que não tenho nenhum objetivo quando escrevo, eu digo que o que tenho são fantasmagorias. São assombros. Tive sorte e minha educação foi algo livre, descolada das obrigações de conceito, como os de gênero. Não fui obrigado a ser “menino”, e isso não era tão importante assim. Sofri bullying especialmente por ser sempre o menor e mais franzino entre todos de minha turma, e como eu gosto de autistar horas relembrando as coisas que acontecem comigo e os “porquês”, terminei por racionalizar todos esses acontecimentos tristes. Algumas vezes eles são combustíveis para uma história.

Duas coisas me assombram em especial, e essas duas coisas eu quero muito encontrar com minha escrita: a primeira diz respeito à minha identidade de brasileiro. O ponto onde ela se conecta com TODOS os brasileiros: os baixinhos e os grandões, os negros, os índios e os mestiços, os pobres, os sertanejos, o trans e o pansexual, a mulher e a menina, o saudável e o doente. O ponto onde ela é saci-Pererê e mula sem cabeça também. Sei que nosso povo gosta daqueles filmes que começam com “baseado em uma história real” e da sensação de que aquilo que se lê será útil e de uso prático, então vivo me perguntando o que seria um herói brasileiro. Talvez Eugênia, esse nome que é inspirado no personagem de Machado de Assis e significa “bem nascido”, seja um protótipo desse herói que procuro. A segunda é a origem dessa coisa que chamamos amor, e seu alcance. Añánga peábo gira em torno de uma coisa que chamamos cuidado, o cuidar, que provavelmente os profissionais de enfermagem devem ter lá seus conceitos. Carminha desperta o amor sincero, apaixonado, em Eugênia através do cuidado. E talvez o amor das duas personagens seja a realização dessa origem tão pura para o amor.

Añánga peábo é um conto de minha autoria, e faz parte do livro Um Rio de Cores – Coletânea de Contos e Poesias Homoafetivas, editora Metanóia.

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