Letra, existência, memória.

canetaA pergunta assombra. Quem sou eu? Sou a criança filha dos imigrantes nordestinos? Sou as coisas que eles me ensinaram, levando-me inclusive à igreja para aprender sobre Deus, ou aquilo que o bullying e o machismo do ensino médio duramente me forçaram a saber? Sou minhas decepções amorosas, ou meu milagre único e surpreendente (como todo milagre) ao encontrar alguém que pudesse me amar?

Existem vários caminhos para saber sobre si, o mais óbvio e amplo costuma ser de ordem prática, o funcionamento do corpo e da mente. Também existe o caminho de olhar para fora, para o infinito, e assim procurar as respostas. Mas eu não sou assim, sou virado para dentro e vivo nos recônditos sombrios de minha cabeça. Sei que minha mente pensa e produz, e habito esse ambiente onde tudo é palavra, imagem, memória.

Acho que é o meu caminho para encontrar a resposta que procuro. O que me define enquanto manifestação escrita de minha existência? Sou cidadão do mundo, expressando de um lugar determinado a mensagem que pertence a toda a raça humana? Sou apenas a cor local, uma nuance, um vislumbre de algo que um dia existiu mas foi conspurcado? Sou uma lembrança no rodapé de um livro de contos? Sou dois quartetos e dois tercetos gargalhando das inconsistências que os encaixes promovidos pelos homens não dão conta?

O que eu sou hoje pode tornar-se no futuro páginas de um livro amarelado. Pode tornar-se um nome na lista enorme de uma genealogia que ninguém mais se importa. Um nome numa certidão de óbito? A lembrança fantasiada depois de passar de geração em geração, na forma de uma cantiga, até os netos de meus netos.

Quem eu sou certamente tem ligação com o que as palavras ao meu redor estão dizendo, faladas e escritas, sobre a época que eu vivo. Sobre o que a memória conseguiu preservar e o que eu vou fazer hoje para que ela, a memória, perdure. Por isso importa olhar para o passado, cuidadoso, para encontrar ali uma fração do que eu realmente sou, e do que talvez eu pretenda me tornar.