O RPG das Personas líquidas

roleplaying1Anos 90. Você ligava a televisão, porque computador não era uma fonte de entretenimento como as televisões. Você gravava uma fita K7, pendurado o dia inteiro no rádio para “pegar” suas canções prediletas. Existia o RPG, mas tinha um status “ultra-nerd”, não era uma coisa maneira, transada. Não era uma coisa legal, porque legal era ir à praia, jogar bola, soltar pipa, dar uma volta… Era um paradoxo inconcebível ser o “malandrão” dos RPGs.

Hoje o que é escrito tornou-se repentinamente pop. “Face” e “whats” são, no final das contas, onde você escreve para os amigos. E com as transformações, esses aplicativos (APPs) estão lentamente ocupando lugares que foram da televisão (por causa dos vídeos e das informações que circulam) e também das rádios, fitas K7 e CDs (por causa da troca de músicas, também disputadas por “APPs” como o soundcloud etc).

Com isso tudo acontecendo (e por tabela incluindo a leitura e escrita criativas), é de se imaginar que o RPG tenha sido incensado ao patamar de diversão cult. Mas nos atentemos a uma característica essencial dessas novíssimas mídias: a autopromoção. Quando você tem uma página no “face”, aquela pessoa ali não é você, e sim um personagem que você está criando para ser visto pelos outros. E a partir daí você pode ter certeza de que quanto melhor for essa história que você está contando, e as curtidas que você recebe, maiores serão as chances de ser “virtualmente popular”, o que para um nerd jogador de RPG dos anos 90 era uma impossibilidade. Era um alívio naqueles tempos poder jogar um jogo “em comunhão” com outros nerds e por um punhado de horas, se divertir com as coisas que gosta. Mas hoje, contar uma boa história é um meio de se tornar popular…

E vieram os massive multiplayer online RPGs, e temos então a fusão ideal. Os “MMOs”, como são chamados, conseguem ser o RPG-face. Quanto mais poderoso é seu personagem, quanto mais “foda” é a persona que você cria no jogo, mais famoso dentro do jogo você é (e dentro do jogo cada boneco correndo e jogando é uma pessoa em algum lugar do Brasil ou do mundo). Aconteceu um efeito ricochete, e o costume de fazer um personagem sinistrão para impressionar (análogo a conseguir mais “likes”) e enfim, ser mais popular até mesmo fora do jogo, entre jogadores de outros MMOs, em fóruns sobre o assunto etc, acabou sendo transferido para o bom e velho RPG de mesa.

Agora o mestre de jogos terá de lidar em sua mesa com o ego do cara que está construindo um personagem não para se divertir com os amigos, com as coisas que gosta. Esse jovem quer conquistar ou impressionar as outras pessoas da mesa com seu incrível personagem, quer conseguir ali, diante do punhado de pessoas que nos anos 90 seriam os “ultra-nerds” excluídos (e agora já são até vistos como normais) alguma popularidade, seus ‘likes”, sua aprovação social, já que hoje esse grupo possue status bem mais parecido com o dos “malandros” que jogam bola ou vivem na praia. Não é mais uma vergonha, apenas um outro tipo de diversão. Por outro lado os jogadores, que imaginamos estarem reunidos com o intuito de se divertir, terão de lidar com o ultra-ego de mestres que usam a mesa e o jogo para exercer suas pretensões de autoridade (e nesse caso o desejo de “popularidade” muitas vezes é compensado com o uso abusivo da autoridade – sem o Mestre simplesmente não tem jogo). E não fazer aquilo que o mestre, candidato à “Francis Ford Coppola”, planejou para sua persona, muitas vezes resulta na morte instantânea do personagem ou na exclusão do jogador “desobediente” da mesa…

Se isso é bom ou ruim eu realmente não sei, mas admito que tem sido difícil jogar para um grupo e pensar na diversão quando os interesses que levam os jogadores para uma mesa de jogo são tão egoístas. Nesse RPG líquido, divertido é ser o melhor no PVP (player versus player/ jogador contra jogador), ter seguidores, ser o melhor. Eu me pergunto se precisa mesmo de RPG pra isso…