Pai, parcela pra mim esse Nike, pai…

O que eu tenho visto nas manifestações ditas de direta organizadas ultimamente não parece o povo brasileiro. Como não parece o povo brasileiro aquele quadro pintado por Debret, “Um funcionário a passeio com sua família”. Algumas fotografias dessas manifestações repetem estrategicamente a ordem do quadro novecentista: patriarca, dama, crianças e no final da fila a escrava. Penso que a realidade da massa que saiu às ruas no dia 13 de março de 2016, se não reproduz a pintura de Debret, aspira alcançá-la. Não entendo o povo brasileiro como um conjunto de “corpos dóceis”, e sim um povo passional. E ainda que hoje em dia não seja possível sequer elogiar “o outro lado” sem receber pedradas virtuais, acho até mesmo digno de nota que as pessoas estejam se acostumando a sair às ruas para manifestar-se politicamente, o que parece uma quebra da tradicional ausência dos brasileiros nas ruas quando faz-se necessário.

Tenho visto, de uma maneira mais ampla, uma fúria passional (essa sim me parece bem à brasileira) contra o governo, catapultada por nossa mídia unívoca e feroz.  Quem vai contra é devorado, é petista, é governista, é inimigo. Essa fúria, tida como ausente das manifestações por alguns, aparece nas imagens de faixas, camisetas e entrevistas selecionadas por esses inimigos, pseudo-adversários. O que esses “traidores” citados querem, em geral, é bem simples de ser entendido: o voto deve ser prestigiado. Repito agora de uma outra forma, e se necessário desenho: quem colocou a presidenta lá não estava de brincadeira e quer que esse voto seja respeitado. Provavelmente esse GIGANTESCO detalhe de 54,5 milhões de votos é o que há de melhor nesse governo, mas os inimigos dele não se importam. É muito triste essa afronta à democracia, e mais triste ainda quando se questiona as intenções dos que lembram da importância do processo democrático. Se o candidato de sua preferência perdeu, você continua acompanhando a política e reflete sobre o próximo candidato em quem você vai votar. Não é como um time de futebol onde a equipe está ruim e logo se providencia a troca do técnico (apesar de que até em futebol essa prática é questionável).

Mas no final das contas, em caráter geral, parece bastante dissimulada a massa que sai às ruas, movida talvez pelo medo de perder o poder de consumo conquistado nas últimas décadas e frustradas as esperanças de comprar “nikes” para suas crianças (e empregar mais e mais escravos, ops, trabalhadores). Parece que a maior utilidade desse 13/03 será saber, por alto, quantas pessoas estão dispostas a se aproveitar “disso tudo que está aí” em benefício próprio, de alguma forma. É bom conhecer bem quem são, quantos são e onde estão essas pessoas.