2. Duquesa

Imagino ser caso para alegria a descoberta repentina de que você não é órfão, mas tem um pai. Entretanto a notícia não se traduziu em um sorriso, e o que Raszam via eram os olhos de Liz arregalados enquanto tentava organizar seu pensamento para conseguir falar mais alguma coisa. Apesar da ausência paterna, ela não nutria nenhuma mágoa por qualquer coisa que não possuísse, aquela era simplesmente sua situação, uma vida segura em um local onde sentia-se protegida e à vontade cuidando dos afazeres e alimentando os sonhos de uma menina comum. Quando tinha algum tempo livre sua imaginação se satisfazia na simplicidade, em pensar como seria encontrar um amor ou como era o mundo além do horizonte que seus olhos podiam alcançar. Talvez para saciar essas curiosidades procurava aprender com os livros o possível sobre o mundo e a vida ao redor ou então ouvia e copiava em um pequeno caderno algumas das belas canções sobre deuses e guerras de terras distantes que os escravos gostavam de cantarolar quando estavam descansando.

Soprando para o lado a fumaça de seu cachimbo, o estranho homem continuou:

-Então já fico satisfeito em dar-lhe essa notícia.Você tem um pai! O motivo dessa visita é levá-la até ele, afinal de contas, você já não é mais tão pequena que não possa viajar.

Ditas essas palavras Nara abriu as portas da estalagem, e em questão de minutos se multiplicou o movimento no lugar. Era uma época de grande agitação, e bem cedo as pessoas já se sentavam às mesas para o desjejum, enquanto outros chegavam apenas para conversar ou tomar aguardente (o que era proibido, mas acentuava o clima boêmio do local, ainda que fosse manhã). Pairava um ar de entusiasmo sobre os frequentadores, e as conversas eram quase todas sobre Joaquim Maria, o nobre governador, pois não se via nenhum meliante vagabundeando pelas ruas desde sua posse, e as vielas e estradas estavam muito seguras! Haviam vários guardas ostentando o brasão azul com três palas douradas, símbolo do lorde que se espalhava por todo canto, e os homens bons (esses eram os mais influentes e ricos, que além de possuírem escravos eram donos de grandes fazendas) começavam a premiar seus servos mais competentes com moedas cedidas pelo próprio Joaquim, o que explicava a intensa movimentação matinal.

Ninguém disse mais nada durante um bom tempo, Razsam estava dando o devido tempo para Lizbela, que decidia o que perguntar ou o que fazer diante daquela nova situação.

– Você precisa caminhar até seu destino; disse o estranho, interrompendo os pensamentos da moça. Nesse momento Nara retornou até o lugar onde sua filha e o convidado estavam, trazendo leite e alguns pães para os dois comerem. Era óbvio que ela conhecia o velho muito bem, e a menina contia a curiosidade para quando estivesse a sós com a mãe. Logo que os serviu Nara saudou Liz com um beijo enquanto retornava ao trabalho na Hospedaria.

Raszam continuou a falar: – Acho que devo a você alguma informação sobre seu pai, e nossa questão é que assim como ele, você tem sangue nobre. Duquesa, a sua existência é uma ameaça para alguns, e eles farão de tudo para descobrir onde você está, mais ainda para acabar com sua vida…Por isso vim, e saiba que quanto antes colocarmos o pé na estrada aumentamos suas chances de sobrevivência.

Lizbela gaguejou:

– mas…m…ma…mas… nun…ca saí d…o vilarejo!!

O velho riu, despreocupadamente.

– Ora, não vim até aqui sozinho, trouxe alguma companhia para jogar e bater papo, creio que te escoltarão em um bom nível de segurança…

– Senhor… Esse homem… Duque… Meu pai… Posso saber o nome dele ou como ele é?

-Ah, é claro, Hurak é o nome de quem a espera! E se a jovem duquesa quer mesmo saber sobre sua aparência, posso assegurar-lhe que seu rosto em muito lembra o dele.

O velho Razsam não combinava de maneira nenhuma com o ambiente da hospedaria: o cachimbo fumacento, sua barba feita e seu cheiro perfumado contrastavam com as pessoas. Seria ele um daqueles estrangeiros? Ocorreu-lhe a pergunta naturalmente.

-Meu pai é estrangeiro?

O velho sorriu, entendendo o questionamento.

-Não, não, minha filha. Seu pai não é estrangeiro, está na capital esperando por você. Eu também não o sou! Apesar de minhas roupas e modos também nasci nessa terra que pisamos. Peço que não me tome por estranho, e caso facilite minha aceitação, imagine-me como um cidadão do mundo… Talvez você me entenda depois que eu lhe apresentar nossos companheiros de viagem, que são mais parecidos com pessoas de seu convívio.

Essa hora Nara estava realmente ocupada na cozinha, e o velho então conduziu a moça até uma mesa do outro lado, na qual estavam sentados os prováveis futuros companheiros de Lizbela em sua iminente fuga.