3. Raszam

Ainda era madrugada, um sábado de junho, quando avistei o vilarejo. Eu já sentia o cheiro da maresia, por estar próximo à costa, mas confirmaram-se as suspeitas de que a travessia em embarcação seria dificultosa: um de meus companheiros de viagem era rastreador, e avisara que os selvagens daquelas terras eram hostis à homens que vinham do mar, nos grandes navios. No final das contas, os meses viajando a pé mostraram-se uma sábia escolha. Ainda assim, não consegui afastar a estranha impressão que tive durante todo o caminho, e no meu íntimo soube que estávamos sendo vigiados. Confiando em minha percepção, considerei esse ligeiro temor, e guardei minhas palavras ao procurar a casa que me foi indicada, o que não foi difícil encontrar: um casebre pálido tão humilde que sequer inspirava nos guardas qualquer tipo de atenção.

Minha diminuta companhia era composta de quatro homens além de mim. Isso poderia representar algum perigo, pois como já mencionei, havia alguma guarda no vilarejo. Mas o conselho de trazer um jesuíta conosco serviu bem a esse propósito e o eclesiástico foi o suficiente para que não despertássemos temor, enquanto a função dos outros era me resguardar de problemas com a viagem pela selva. Dessa forma, fui conduzido da entrada da cidade até uma hospedaria que avistamos, lugar confortável para descansar os cavalos e tomar alguma bebida. Não precisei esgueirar-me até a tal casa, porque ainda na hospedaria encontrei a velha; Nara… Em minha lembrança, a cozinheira de uma casa grande que me abrigou durante alguns meses, boa companhia para jogar conversa fora. Um princípio de amizade útil que as circunstâncias foram caprichosas em finalizar. Uma criatura patética naquele tempo, Nara agora parecia outro ser: o tempo a teria presenteado com alguma sabedoria ou o choque da deformação causada pelos muitos anos havia enganado minha percepção?

Ela recebeu-me inicialmente com o rosto surpreso em me ver, seguido de uma expressão de intensa gravidade. Sabia o motivo que me levou até ali, ofereceu uma ceia, e pediu gentilmente que eu me sentasse à parte, uma conversa particular.

– Eu sabia que alguém viria Razsam, só não esperava que fosse você.

– Ah, o que me impede de auxiliar uma velha conhecida para saldar uma dívida, ainda que o         credor me pareça um velhaco injusto? Sua criança está em perigo e vim salvá-la, o   que poderia ser melhor?

– Eu conheço você Razsam, o suficiente para não confiar em vagantes desocupados. Considero deixar que você se encontre com a menina, para que ela possa ter a oportunidade de tomar suas próprias decisões. Não quero gastar meu tempo discutindo essas coisas com você, sei que seu “mestre” já tem tudo planejado. Porém, vou lhe dizer uma coisa, contando com o que você conhece sobre mim: – Ela não vai ser facilmente iludida nem domada.

Olhei profundamente nos olhos de Nara, e não encontrei indícios de mentira. Algumas coisas interessantes poderiam ser reveladas, porém eu duvido muito que essa menina possa controlar sua própria vontade, já que ela é a suposta filha do… Como disse a cozinheira… Mestre. Eu esbocei um sorriso:

– Pois traga a criança até aqui, minha querida.