4. Assum Preto

Você me pediu, Ícelo, e aqui estão minhas memórias.. Sabe… Em minha terra os homens costumavam furar os olhos de um pássaro negro acreditando que assim ele cantaria mais e melhor. E se meu passado está obscurecido pelo tempo e pela luz, lembre-se que tal animal, depois de muito gritar de dor, teria dificuldade em recuperar a pureza de quem um dia pôde cantar aquilo que vê. Naquela época todas as criaturas guardavam de mim uma distância que, hoje, posso chamar de próxima. Pois bem, eu vivia com algumas delas, e sei que as palavras em mim eram muitas, jovens e repletas de sentimentos.

Meu corpo se abrigava sob um teto abandonado onde eu conheci pessoas, mulheres e homens, que haviam se libertado de um estado de severa escravidão. Naquele tempo eles se comparavam ao estado físico em que eu me encontrava, o que em nada era parecido com os nobres e sofisticados brancos, que se cobriam com tecidos vindos do outro lado do oceano.

A lembrança mais antiga que ainda retenho em minha memória é da “Desvio do Mar”, um casarão que recebia, num amplo salão com mesas e cadeiras, os homens possuidores de algum recurso em um raio de centenas de quilômetros. Claro, eles o faziam para ficar a par das notícias das redondezas, mas aquele também era o lugar onde, algumas vezes, em troca de algum pequeno serviço, eu conseguia obter pão ou leite suficientes para aplacar minha principal companheira à época: a fome.

E foi na “Desvio do Mar” que conheci Lizbela: uma grande surpresa para mim, que houvesse no mundo uma outra espécie de gente não adulta, eu que não sabia de onde tinha vindo, já que todas as gentes pareciam ter nascido grandes e repletas do vazio tão comum de ser cheio de si. Aquela menina, a certa feita, parecia comigo apesar de clara, das benesses, das aulas com padres e da cobiça dos homens.

E Liz era filha da estalajadeira, Nara, que certo dia, ao atribuir-me um ou outro afazer, carregava uma expressão profundamente triste. Ora, Ícelo, você já deve ter imaginado que isso me atingiu. E sei que o reter tão detalhado dessa lembrança é apenas a confirmação de que deu-se ali o início daquilo que hoje eu simplesmente… Sou. Pode parecer curioso que as pessoas com as quais eu mais dispendia palavras eram essas duas. Primeiro a estalajadeira, que me fornecia o necessário para sobreviver, e finalmente a filha dela, que sempre estava à minha procura… Bem… Nem sempre, apenas quando sentia-se só.

Normalmente Nara era vivaz e alegre, e foi o vislumbre do início de sua ruína que provocou essa reação em cadeia emocional, hoje tão familiar, essa agonia em minha alma, despertando pela primeira vez meus dons. Eu não era afeita a perguntas e empatia, por isso a ansiedade me levou a espreitar todos os cantos da casa. O grande salão, a essa altura, já fervilhava com boatos e histórias de lugares distantes, que eram contadas de forma entusiástica. Contos antigos que reverberariam nas mentes dos homens durante as horas por vir, em mais um dia de trabalho no campo.

Outra coisa que muito bem me lembro daquele tempo, era de que meu afastamento das outras criaturas, imposta por detalhes intrincados que fogem até hoje de minha compreensão, não era algo indesejado. Eu não me deixaria conduzir por qualquer vontade com facilidade, intuíam os estranhos, e uma vez manifestados os dons, minha atenção era guiada para onde os instintos primitivos, despertos pela primeira vez diante do sofrimento de Nara, me conduziam: um homem com a pele pintada descia a escadaria que desembocava na lateral do grande salão.

Era um nativo. Diferente de muitos dos índios que encontrei em cidades, aquele trazia consigo seu arco. Ele usava botas de couro, camisa e calça, talvez para proteção. Seu cabelo era negro como as asas… Sim… Talvez os olhos fossem perfeitos como os de todos os outros nativos, mas sobre as costas daquele homem repousava o sofrimento da extinção de uma raça. Eram cabelos profundamente negros e longos sobre suas costas, como as asas do assum preto. Ainda que não fosse cego e não precisasse de mutilações para cantar, a escuridão estava sobre ele.

Dirigiu-se até a mesa onde estava outros dois homens, de roupas mais incrementadas: um deles era branco e trazia um chapéu a seu lado (e um arcabuz), o outro era claramente um religioso. Talvez fosse algum mateiro em meio à viagem e o padre de sua expedição… Meus ouvidos se aguçavam com a intenção de ouvir a conversa entre aqueles três, mas o lugar onde eu estava não era propício, e o que meus ouvidos captaram foi uma outra conversa, perto de mim, mas em outro aposento, ecoando levemente, quase inaudível, num aposento à parte, porém mais próximo.

Caminhando furtivamente para fora do salão e para a sala de onde vinham o que me pareciam cochichos, encontrei um canto atrás de uma pilastra onde eu podia ver quem estava ali: era Lizbela, diante de uma mesa posta com alguns pães e leite, e do outro lado um velho que fumava um cachimbo fedorento. Como que por um milagre, eu podia facilmente e à boa distância, ouvir aquilo que não se podia ouvir: algo sobre o pai de Liz, e uma viagem. E foi assim, Ícelo, ouvindo palavras que não eram para mim, que trilhei os primeiros passos do caminho que me trouxe até você.