Explosões

Folheio, despreocupado, um dos cadernos amarelados e repentinamente descubro que o faço de trás para frente, o que deveria ser até natural, pois Repassado é um processo contínuo que se espalha em todas as direções. Logo que o “re” acaba, começa outro “re”, mas entenda que não posso aumentar a palavra toda vez que descubro a necessidade de outra sílaba. Suspiro. Nada que venha a ser escrito aqui ou lá será capaz de expressar o Repassado, ainda que eu resolva por capricho apropriar-me dessas páginas e repetir infinitamente o processo que o cria e recria continuamente.
Eis que entre o desespero da solidão e o ápice das paixões está um intervalo de conflitos, e tentamos ingenuamente encapsular os sentimentos sem saber que o universo não funciona dessa forma. Nunca funciona. Não há limite e não há pecado na fúria da desilusão.
Dessa forma, lanço no caderno palavras limpas de mim. Procuro o intervalo, encontrando enfim uma avaria que tem o mesmo nome: Repassado. Repleto de pausa, retorno, parando entre as pautas, vazio por vazio. A multidão de palavras e a multidão de vazios me preenche: é quando vem o descontrole. Repassar é o derradeiro suspiro, ódio.
Repassado é dádiva da explosão.

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