10 silêncios – Dia da Mulher

Hei de silenciar-me, mas sem perder a ternura, jamais!
A parte que me cabe nessa semana é homenagear, e faço isso passando a palavra a elas:

Diante do altar dos sacrifícios

Em memória das mulheres mortas
no campo de algodão
cantemos a semente inviolada.
Em memória de Verônica adormecida
em sua infância eterna
cantemos a casa indestrutível.
Em memória de mim
e de minha irmã
e de minha prima
e de minha amiga
que tombamos
entre o ranger dos ossos
e o assobio dos tiros
cantemos ainda.
Cantemos a memória
e a nossa antiga avó
pega a laço.
Cantemos a memória
e as unhas extirpadas
no quarto de despejo
da velha ditadura.
Cantemos a memória
essa cadela
que
[22 balas
11 perfurações à faca
àcido no rosto
carne infibulada]
não morre
não morre nunca.

Micheliny Verunschk (https://escamandro.wordpress.com/2017/09/26/micheliny-verunschk/), poeta e historiadora, nasceu em Recife (PE), em 1971. Publicou os livros de poesia Geografia Íntima do Deserto, O Observador e o Nada e A cartografia da noite.

#Segundo Silêncio:
Ainda Assim me Levanto, Maya Angelou
Você pode me riscar da História
com mentiras lançadas ao ar.
Pode me jogar contra o chão de terra,
mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar.
Minha presença o incomoda?
Por que meu brilho o intimida?
Porque eu caminho como quem possui riquezas dignas do grego Midas.
Como a lua e como o sol no céu,
com a certeza da onda no mar,
como a esperança emergindo na desgraça,
assim eu vou me levantar.
Você não queria me ver quebrada?
Cabeça curvada e olhos para o chão?
Ombros caídos como as lágrimas,
minh’alma enfraquecida pela solidão?
Meu orgulho o ofende?
Tenho certeza que sim
porque eu rio como quem possui
ouros escondidos em mim.
Pode me atirar palavras afiadas,
dilacerar-me com seu olhar,
você pode me matar em nome do ódio,
mas ainda assim, como o ar, eu vou me levantar.
Minha sensualidade incomoda?
Será que você se pergunta
por que eu danço como se tivesse
um diamante onde as coxas se juntam?
Da favela, da humilhação imposta pela cor,
eu me levanto.
De um passado enraizado na dor,
eu me levanto.
Sou um oceano negro, profundo na fé
crescendo e expandindo-se como a maré.
Deixando para trás noites de terror e atrocidade,
eu me levanto.
Em direção a um novo dia de intensa claridade,
eu me levanto
trazendo comigo o dom de meus antepassados,
eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado.
E assim, eu me levanto
eu me levanto
eu me levanto.

Maya Angelou, pseudónimo de Marguerite Ann Johnson foi uma escritora e poetisa norte-americana.

Link para parte 2: https://desilusoes.com/2018/03/08/10-silencios-dia-da-mulher-parte-2/