10 silêncios – Dia da Mulher (Parte 5)

Hei de silenciar-me, mas sem perder a ternura, jamais!
A parte que me cabe nessa semana é homenagear, e faço isso passando a palavra a elas:

mescalina

há um deus qualquer que me impede de amar
há anos de minha própria história
um amor falso e líquido
há crianças que não são meus filhos
e meu nome confuso
entrelaçado ao som da tua voz
ao branco do meu próprio riso
há dias que insistem, insistem e insistem.
ando pra lá e pra cá
odisseia espacial dentro do quarto
pequenos quilômetros quadrados
de mim.

BASTOS, Patrícia. Em carne e osso. Editora Multifoco, 2016.
Patrícia Bastos

Patrícia é escritora, professora e mestranda em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Publicou alguns de seus poemas no livro “Em carne e osso”,  em 2016.

 

#Silêncio décimo

Segundo ato

frustrado-gris em quarta-feira nublada.
a ambiência era fétida, rota de drogados e adictos, e mijo entalhado nos muros..
ela: “- estou em são paulo….”
ele – (silêncio) e pensava… sua essência de pacto com mutismo … melhor não dizer nada. não disse. nada disse. e pensava – que diabos é isso agora!
ela “- beijo, bom dia. ” (seguindo o que previa porque o que ela gostava, mesmo, era de promover leves taquicardias)
ele: ‘ – beijo, bom dia…”

então, ela viu o cinza, ainda mais cinza, tão predominante na estação da luz. mesmo aquela hora do dia a sua essência era de rotas, fatos, hiatos e campinas.

* * *
são 5 segundos para abafar toda semente no cio. são 5 segundos, em um segundo, para afiar a moleira no fio. são cinco segundos para estripar da foice o cabelo em cútis e o seu arrepio (tão) óbice-cúmplice… são 5 segundos para não surgir com o mesmo olhar de um pássaro imbecil. são 5 segundos para pingar a língua em fastio-febril e o estado cálice-ápice em calafrio,
são os cuspes … os seus. por um estado “mutis” em dia gris.

* * *
é besouro tec-tec castanho escuro. é pirilampo em escroto diminuto. é caminho oblíquo em colisão de inseto confuso; é cudelume em rota de fuga, e passado sem volta e sem contrafuga… porque em estradas estão inclusos os vaga-lumes, manchas apagadas e cantos protusos. há avessos difusos. há mentiras obscenas, noctiluzes reclusos em copos de sisos, de cerveja em antidepressivos e em fumo. são insetos de luz, sem órgãos …
pagãos bioluminescentes

luciferina oxidada em oxigênio, em cortina de fumaça.

e não temos muito tempo, nem tons, nem abusos – luzecus então,

não se atrase, amor … não se atrase.

Adriana Zapparoli (Campinas–SP) é escritora e tradutora. Publicou os livros de poesia A Flor da Abissínia (versão bilíngue) em 2007, Cocatriz em 2008, Violeta de Sofia em 2009, Tílias e Tulipas (versão bilíngue) em 2010, O Leão de Nemeia em 2011, Flor de Lírio (versão bilíngue) em 2012, Flor de Lótus em 2013, a tradução poética para Mosaico Fluido em 2014, todos publicados pela Lumme Editor (Bauru-S.P). Em 2012 publicou a plaquete poética Lontra Corola Libido editada pelo Centro Cultural São Paulo.

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