ELA RIA, RIA ALTO, BEM ALTO

(Moises Neto)

Photo by Suad Kamardeen on Unsplash

Conheci Jaqueline num buraco lá pros lados de Manilha. Ela era mais velha, mas nós dois não valíamos nada em questão de idade ainda. Ela tinha dezessete, eu quinze. Me chamou pruma partida de queimado enquanto eu contava o tempo. Tinha sido expulso de casa na época e passava os dias andando por aí, em qualquer lugar.

– Queimado é coisa de menina – respondi.

Ela riu. Todo mundo riu. Aí eu fui, mas só porque não tenho amizades depois da ponte. Brincamos disso uma manhã e meia tarde. Jaqueline ria. Ria o tempo todo. Ria alto, bem alto. E me chamava de… “Carioquinha”. Era “Carioquinha, hahaha” pra lá, “Carioquinha, hihihi” pra cá. Eu bolei. Não saquei o gosto da implicância, meu paladar pra essas coisas era falho demais.

– Ô, garota. Qual é a sua? – perguntei.

– Calma, Carioquinha. Relaxa um pouco – ela disse, piscando o olho e me beijando o rosto.

Arrepiei, não disse nada. Galudei, disfarcei. O pessoal começou a partir e quem ficou já fazia umas brincadeiras, insinuando algo entre nós dois. Aquelas babaquices de “hmmmmm” e “ihhhhhhhh” sempre que a gente falava algo um pro outro. De início isso me irritou, mas a gente se acostuma, vai até gostando, né? O corpo pede. E o dela era lindo, só notei com o tempo. Indícios do que viria a ser. E veio. Foi. É… Naquela noite mesmo, depois de um refrigerante e um hambúrguer, contei o que me restava no bolso e me liguei que não daria pra voltar pro Rio, tinha que ficar por lá.

– Dorme lá em casa, comigo – propôs.

– Oi?! Você é doida?

Era. É. Eu também. A gente se pegou o resto do dia por aí. Aquela pele morena e quente dela. Um cabelão. Todo o resto que eu mais vi com as mãos que com os olhos, ansioso que eu tava. Fiz hora, fumei sei lá quantos cigarros, acendi guimbas, cuspi à distância. De nove às onze da noite, esperei apagarem a luz da sala. Jaqueline abriu a janela do quarto e me chamou. Pulei pra dentro com tudo que eu tinha e era.
Outros quartos, outras camas, outros bairros, meses e anos. Passei um tempo com ela… Golpe atrás de golpe, plano atrás de plano. E a gente discutia bonito, uns arranca-rabos que nem conto. Mas sempre terminava assim, água na cara, gelo no corpo e nós lá, como se ainda fôssemos adolescentes, os mesmos se provocando no queimado. A gente pendurava ali, fugia com a trouxa de noite aqui, inventava nomes e pretextos acolá e lia o jornal furtado na distração dos velhos com ela pelas manhãs… Tempo bom.

Fomos felizes o quanto deu, felicidade é coisa de dar pé. Quem sabe, simplesmente sabe. Fiquei velho antes dela, mas ela remoçou depois de mim. Ciclos. Fases. Foi no descompasso o desencontro. Às vezes acontece. Eu já sabia. Vi meus pais e os pais dos meus pais, tudo do lado dela também. “Quem sai aos seus…”

Hoje trabalho a garrafa, jogo ronda sozinho com o baralho velho que ela afanou da proprietária de uma quitinete em que moramos por uns meses lá no Lins. A velha tacava creolina no corredor depois que passávamos, sempre resmungando de algo. Nem lembro o nome da portuga ranzinza, mas as manchas no carteado me lembram as da parede infiltrada daquele muquifo.

Ah, me lembram de Jaqueline também. Ironias da vida, né? Conheci Jackie num jogo e a perdi em outro. Uma mão ruim na mesa atrás da outra, ela nervosa e bebendo demais. Eu travado. De repente, uma carta que não devia estar li caía e todos olhavam injuriados. Ela ria. Ria alto, bem alto. Sem parar. Levantei num salto e a arrastei dali, os dois às gargalhadas, mas só ela rindo com vontade. O nervoso agora era eu. Ouvi os gritos deles cada vez mais próximos. Senti tanto o peso dela quanto a raiva deles. Algo me acertou. Tombei. Nós dois tombamos. Ela estava desacordada, eu desesperado. Chutes, socos. Quando acordei, não a vi. Na enfermaria, disseram que partiu prometendo voltar, que me beijou o rosto e disse que relaxasse. Contendo a lágrima, perguntei se ria. Sim. Não esperei. Não havia mais nada pra mim ali.

Nem aqui.

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