Incertezas

(Thiago Pined)

Photo by Felicia Buitenwerf on Unsplash

— Você vem ou não? — Ele me pergunta com seus olhos grandes e castanhos direcionados aos meus, sem nem piscar uma vez.
Mas eu não sei responder — não digo uma palavra nesse momento.
Por tantas vezes imaginei o momento em que iriam prestar atenção no garoto quieto no canto da sala de aula, aquele que apenas sorri para todas, fala poucas palavras que ninguém entende, que todos parecem gostar de falar (ou pelo menos dar um “bom dia”), mas que ninguém sabe o nome, na verdade. Que ninguém se importa.
Eu já vi ele e sua gangue.
Na verdade, era quase que completamente impossível não vê-los: os três descolados sentavam-se ao meu lado em toda aula, de segunda à sexta, desde sete da manhã até os exatos 12:45. Eles riam entre si, conversavam sobre tudo — e eu quero dizer sobre verdadeiramente TUDO; não havia um dia que eu não descobrisse que um sonho não durava mais que três minutos ou que o mel de verdade nunca estraga — e nunca pareciam se importar com nada. Principalmente com os professores.
Enquanto isso, eu apenas ficava lá fingindo que estava prestando na aula de Biologia sobre mitocôndria, mas estava admirando aquela amizade verdadeira de dois garotos e uma garota que pareciam ter nascido juntos de tão amigos que eram. Talvez eu ficasse com um pouco de inveja por eles serem tão perfeitos para mim.
Minha vida nunca foi daquela forma — nunca foi perfeita.
Se minha vida fosse um filme, seria parecida com “As vantagens de ser invisível”, no entanto, todo dia eu acordava e, ainda de olhos fechados, rezava para qualquer deus que estivesse acima de mim — se existisse algum deus — e pedia para que eu não fosse mais uma história triste. Enquanto os dias seguiam eu imaginava que, ou deus não me ouviu direito, ou ele não existia, ou ele não se importava comigo. Enquanto isso, o dia se seguia e me fazia me lembrar a cada segundo que não havia mais outra alternativa em minha vida que eu ser mais uma história triste.
E então eu apenas desisti.
Os dias foram passando e eu fui apenas sendo o coadjuvante na história dos outros dentro daquela sala de aula que havia mais de trinta alunos que se conheciam além daqueles três que me faziam admirar tanto…
E conheci cada um deles.
Tinha a menina, Rosa, cujo cabelo era da mesma cor que o nome. Ela parecia a mais descolada de toda a escola e eu adorava admirar aqueles cabelos enrolados e curtos pintados da cor mais pink que existe em tintura na farmácia, rosto redondo, nariz pequeno, pele cheia de melanina e com uma autoconfiança que me fazia querer ser ela um dia — coisa que era obvio que nunca iria acontecer. Rosa as vezes puxava o “S” querendo ser paulista, gostava de bandas japonesas e tinha um caderno com fotos de uma banda que eu não conhecia, sempre tinha um anime nas mãos que lia enquanto entrava na sala, mas deixava de lado assim que via seus amigos. Sempre tinha sorriso no rosto, mesmo que uma vez vi ela quieta no canto bastante triste (soube que foi por causa de algum namorado). Além disso, tirava notas consideráveis na escola.
Tinha também o Pedro, o nerd do grupo, como chamavam. Pedro tirava as melhores notas e sempre estava em destaque na sala. Era alto, cabelos bem curtos, olhos grandes e um pouquinho mais envergonhado. Estava sempre com um livro na mão; e lia de tudo! Já vi Pedro lendo os livros YAs mais clichés que eram vendidos na livraria quanto uma boa biografia de um cantor famoso da TV. Ele era mais quieto e sério e era quem sempre trazia as histórias mais interessantes que eu bisbilhotava.
E tinha ele, Benício, que tinha cabelos longos, um rosto magro e fino, olhos que me faziam acham que ele estava sempre com sono.

Não era muito inteligente, mas conseguia passar de ano. Sempre se sentava na última cadeira da penúltima fileira vinda da porta para a janela. Gostava de se jogar na cadeira, colocar a cabeça por cima da parte de madeira e fingir que não se importava com nada. E era interessante quando ele parecia não se importar com nada em sua vida, mas parecia ter uma estranha carência por aquele grupo, deixando-o perfeitamente equilibrado.
Qualquer um externamente diria que tudo aquilo era impossível.
Bem, por todos esses anos eu imaginava que poderia fazer parte daquele grupo que eu tanto admirava, no entanto, não havia nada que eu podia fazer, afinal, eu não tinha coragem nem de respirar mais forte ao lado deles.
Até aquele dia…
Quando Benício estava com a capa do filme que eu mais adorava em toda a minha vida e alguma coisa no meu cérebro me fez abrir minha boca:
— Adoro esse filme!
Ele se virou para minha e eu me senti congelando. Abriu um meio-sorriso e voltou-se para a capa do DVD em mãos.
— Ele é bom mesmo! Um dos meus favoritos!
— Mesmo? Eu vejo toda semana.
— Não é pra tanto… — Então eu quis me esconder na minha cadeira. Ele ficou me observando por tempo demais, me fazendo querer sumir. — Qual é o seu nome? — Ele me perguntou.
— Sou Rodolfo.
Benício ia me responder, mas seus amigos chegaram e eu voltei a ser o menino invisível. O tempo foi passando e ficamos sem professora de Português (ela tinha ficado doente, ou algo do tipo), então todos desceram.
Eu ficaria na sala mesmo, lendo um livro quieto e esperando o tempo passar. Até que ele me chama, seus amigos me olhando. Engulo em seco. Respiro fundo e, por um segundo não sei o que responder. Mas, alguma coisa me faz pensar em mudança. Eu tinha que mudar!
Então, respondo:
— Vou sim! — Me levanto e vou com eles, tendo certeza que não seria mais uma história triste.