Em outra vida

(Nathasha Chrysthie)

In another life, I would be your girl
We keep all our promises, be us against the world
In another life, I would make you stay
So I don’t have to say you were the one that got away

(The One That Got Away – Katy Perry)

Photo by Emery Meyer on Unsplash

           “Só mais hoje, Marta. Só mais um dia”, eu recitei o meu mantra ainda antes de abrir os olhos, assim como tenho feito todos os dias dos últimos dez anos. Rolei para o meu lado esquerdo e espiei por baixo da coberta. A cortina tremulava, indicando que seria mais um dia de ventos fortes. Suspirei, me munindo de forças, e me sentei na cama, colocando as pernas para fora, fazendo o mínimo de barulho possível. Meu corpo toma um choque ao encostar os pés no chão gélido.

           No caminho para o banheiro, observo Tony ressonar, ainda em sono profundo. Ontem foi mais um dia de bebedeira depois do trabalho e ele chegou em casa trocando as pernas, fedendo a cerveja barata e me procurando na cama pra meter uma vez e depois dizer que me ama sem me olhar nos olhos. Nenhuma novidade.

           Tiro o pijama e entro direto embaixo do chuveiro. Fecho os olhos por alguns minutos sob a água quente. O banho é rápido, mecânico. Saio, me enrolo na toalha e escovo os dentes. Enquanto penteio os cabelos ralos, uma mulher envelhecida e com olheiras acentuadas me encara de volta pelo reflexo do espelho. “Ele não ia gostar de ver o que me tornei”, penso, mas logo em seguida lembro de que ele perdeu o direito de gostar ou deixar de gostar de qualquer coisa relacionada a mim quando foi embora.

            Volto para o quarto e me visto com calça jeans e um cardigã. Vou para a cozinha e aperto o botão da cafeteira, já preparada na noite anterior. Enquanto a máquina trabalha, vou a área calçar meias e tênis.

            O aroma do café já domina a cozinha quando volto e me sirvo de uma caneca generosa. Passo direto pelo pacote cheio de pão, já perto da validade. É sempre assim, quando se aproxima dessa data, eu vou perdendo a fome, o sono, o ar.

            Olho para o relógio acima da geladeira e me dou mais alguns minutos. Sento a mesa e me permito fechar os olhos, apreciando o líquido quente escorrer pela minha língua até a garganta. Costumávamos fazer esse ritual juntos. Você dizia que esse seria o nosso momento todos os dias, para sempre. Me prometeu que mesmo quando eu estivesse muito velha para levantar minha caneca, você colocaria um canudo pra mim, e eu ria dessa idiotice. Afinal, quem toma café de canudo? Mas eu tomaria com você, nessa outra vida que não é a nossa.

            Você me fez tantas promessas, só para quebrá-las logo depois. Era para ser nós dois contra o mundo, mas se tornou só o mundo contra mim.

            Lembro de sentarmos na parte traseira da caminhonete da sua mãe e tomarmos sorvete de pistache olhando as formas das nuvens refletidas no lago. O nosso mundo era imperturbável, pacífico, como as águas do lago iluminado pelo sol do verão.

            Nesses dias, você me dizia que não importava quantos anos se passassem, mas que nós nos lembraríamos de manter nosso amor quente como o sol do verão na nossa pele corada. Você encarava por horas as minhas bochechas salpicadas de sorvete, sol, beijos e vergonha. E agora eu vivo em um inverno sem fim.

            Nosso amor era fácil como respirar. No momento em que nasceu, em uma troca cúmplice de olhares na festa junina da cidade, não precisou de qualquer interferência externa para vingar. Quando veio me dizer “oi” eu já era sua, porque eu sabia que também seria meu.

            E você foi meu pelo tempo que deu, mas nem a eternidade seria suficiente. Fizemos planos perfeitos, infalíveis. Mas eles falharam. Vislumbramos um futuro que só existiu em nossas mentes férteis e incompreendidas. Você me fazia ter vontade de mergulhar em todas as suas ideias, assim como você também mergulhava de cabeça nas minhas loucuras.

Meu erro foi não considerar que um dia você me daria as costas e que eu teria que descobrir como respirar sem você.

            Em outra vida, ainda seríamos nós, cumprindo cada uma das nossas promessas, realizando todos os nossos planos. Em uma vida em que você não tivesse me deixado.

            Você quebrou o nosso pacto de nos fazermos eternamente felizes. Você mentiu pra mim quando disse que a vida só fazia sentido se pudesse contemplar o meu sorriso todos os dias. Um sorriso que não existe mais e sei que isso também te machuca, mesmo que eu tente me convencer do contrário. Eu sei que essa dor não é só minha, não pode ser. E aí me dói ainda mais por doer em você.

            Não pense que não é difícil pra mim colocar toda essa culpa em cima de você, mas é porque você não podia ter feito isso. Não podia ter ido, não devia. Eu me humilhei diante de todos e supliquei para você ficar, mas você já não me ouvia mais. E eu quis morrer também, todos os dias desde então.

            Abro os olhos devagar e viro o último gole de café, já frio. Pego minha bolsa e as chaves do carro em cima do aparador. Desço até a garagem pelas escadas para esticar as pernas rígidas pela memória do caminho que estou prestes a fazer pelo décimo ano seguido.

            Dirijo sem prestar atenção a paisagem, já gravada na minha mente. As lágrimas caem no meu colo. Paro no estacionamento de terra batida e saio do carro envolvendo o corpo com os braços. Na mão, um único botão da nossa roseira, que eu continuei cuidando sozinha.

            Paro diante da sua lápide e sinto tudo de novo, como no dia em que você deixou a morte te levar.

— Eu não aguento mais. Estou pronta para outra vida com você.