Máquina do Tempo

em

(Fernanda Piersanti)

Photo by Jonathan Borba on Unsplash

Dizem que ainda não inventaram máquina do tempo. Tolice! Quem fala isso não sabe o poder que tem o sabor de um bom prato para nos fazer transcender de uma realidade para outra.

Todo mundo em volta dela percebeu o que estava acontecendo. Ela não era mais ela, não estava mais ali. Desapareceu como num passe de mágica. Desmaterializou-se. Virou fumaça. Escafedeu-se. Tudo isso sem sair do lugar.

Era um dia qualquer de trabalho, um almoço no restaurante de sempre, com a companhia de sempre de si mesma. Estava com muitas coisas na cabeça, nem pensou muito no que pedir. Especial do dia? Tá, pode ser! Sua cabeça estava longe, mais precisamente dentro da planilha do Excel ainda incompleta.

Quando chegou o seu prato, uma boa surpresa. Uma belíssima macarronada com molho de tomate. Sentiu algo familiar naquele cheiro, mas não deu muita atenção. Devia ser a fome, afinal já eram quase três horas da tarde.

Já na primeira garfada aconteceu. Sumiu. Involuntariamente fechou os olhos para apreciar aquele sabor de lembranças, com pitadas de saudade e foi parar lá pra casa da sua avó Lucinda.

Vó Lucinda era famosa por seus doces, daquelas que te enchem de bolos e tortas desde que você pisava na casa dela até a hora de ir embora. Ah! E que sofrida era essa hora. Levava bolo pra comer no caminho, pro lanche da tarde, pra matar as saudades a semana inteira. Ninguém saía de lá sem uma marmitinha pra viagem. E a viagem, no fim das contas, era sempre de volta pra lá!

Mas alguns pratos de almoço eram especialidade dela. A macarronada era um deles, servida com purê de batatas, que era o toque da chef. Ninguém sabia o segredo, se era o tomate escolhido na feira temperado pela simpatia do feirante, se era a cebola que induzia suas lágrimas sempre de felicidade, se eram suas mãos tão carinhosas, de pele bem fina, enrugada e delicada que tocavam macias cada ingrediente do molho, ou as batatas amassadas à mão para fazer o purê.

Era incrível vê-la cozinhar e prosear, enquanto nos enchia de quitutes, caprichos e carinhos de vó. Coisas de abrir o apetite mesmo, do coração! Conseguia até sentir o gosto do purê com o macarrão, uma iguaria raramente reproduzida nos restaurantes. Um reencontro delicioso! 

A casa dela era bem simples, não tinha luxo nenhum. Mas aquela cozinha acolhia a todos, não importa o quanto a família crescia e se transformava. Crianças vinham, adultos se tornavam, traziam novas crianças, e o coração da vó Lucinda só crescia pra caber essa gente toda.

Mas aquele sabor trouxe também, um pequeno amargo no final. De saudade. E foi essa mordida que marcou o fim daquela viagem. 

Ela, que não esteve ali durante todo o almoço, voltou para o restaurante de sempre, perto do trabalho. As preocupações foram aos poucos retomando seus lugares em sua cabeça. Trabalhos a fazer, prazos, ligações. 

Até que antes que tudo voltasse ao normal como se aquela viagem no tempo não tivesse acontecido, ela parou por um momento e refletiu sobre o que havia acabado de viver. Sentiu um calor intenso no peito, os olhos se encheram de saudade e lágrimas, que logo foram arrebatados por uma onda imensa de felicidade por ter tido a sorte de ter memórias tão gostosas de sua avó. 

Resolveu, então, deixar um bilhete para o cozinheiro. Coisa simples, escrita à mão no guardanapo de papel do restaurante que dizia:

“Obrigada por inventar a máquina do tempo que viaja para além dessa vida, tendo como combustível o sabor das comidas que nos tocam a alma.”

Ele tentou alcançá-la ao ler o bilhete, mas não conseguiu. Seus olhos marejados o impediram de enxergar a tempo quem havia escrito aquelas lindas palavras. Mas, tudo bem! Contentou-se em guardar pra sempre aquele bilhete junto com a sensação de ter alcançado seu propósito nessa vida! 

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