Vá e veja

em

(Rubens Angelo)

Photo by Angus Gray on Unsplash

A nave emergiu da escuridão como uma mancha de luz esmeralda, sua cauda se distendendo até as infinitas profundezas do massivo buraco negro. Na cúpula central do veículo, Aron observava com ansiedade sua saída daquele vórtex criado pela luz capturada de bilhões de estrelas. O viajante usava um pesado traje protetor e, por precaução, julgou que não iria tirá-lo até sentir-se seguro naquele novo lugar. A medida que superou a forte gravidade do buraco negro em rotação, a nave passou a ser vista em sua verdadeira forma, uma esfera metálica tão polida e homogênea que espelhava o espaço ao seu redor.

O viajante se encheu de alegria ao finalmente contemplar aquele lugar desconhecido. Estava no centro de uma outra galáxia. Fora uma longa e perigosa travessia, mas o prêmio compensaria os riscos. Se as observações dos seus compatriotas cientistas estivessem certas, seria a primeira vez que seu povo travaria contato com uma “mega-civilização”, uma espécie que foi capaz de se expandir por milhares de mundos, colonizando a galáxia inteira. Fenômeno raríssimo no Cosmos.

— Eu cheguei bem. — Aron falou ansioso enquanto acionava a gravação do diário de bordo. — Agora vou estabelecer um curso para o “ponto”.

O ponto de encontro. Um local pré-determinado onde as milhares de sondas enviadas previamente iriam se reunir. Elas tinham a função de coletar informações sobre a mega-civilização daquela galáxia, assim como mapear os milhões de sistemas colonizados. Seus complexos sistemas também estavam preparados para eventualmente estabelecer contato, transmitindo uma amistosa saudação de paz caso se deparassem com os avançadíssimos seres. Aron mal podia esperar, ajustou os reatores ampliando sua potência e acionou o “Salto”.

A esfera acelerou, adquiriu novamente uma luminosidade verde e sua estrutura se alongou criando uma pequena cauda. Em instantes a nave desapareceu completamente, imergindo no hiperespaço e surgindo em um outro ponto da galáxia. Os olhos do viajante brilharam ao ver um enxame de luzes ao redor de seu veículo. Como planejado, as sondas o aguardavam para transmitir os preciosos dados da longa coleta. E começaram a descarregar a informação acumulada sem demora. Em uma grande tela, Aron assistiu uma sucessão de imagens aparecer em espantosa velocidade.

— O número de sondas perdidas está dentro do esperado. — Aron disse entusiasmado para seu diário, ao ver passar as imagens da explosão de uma estrela que provavelmente destruiu uma das sondas. — Elas fizeram um excelente trabalho e estiveram por toda a parte. A quantidade de dados é incrível.

Sim, as sondas haviam explorado milhares de mundos, luas, asteróides e até mesmo o interior escaldante de nuvens gasosas circundando perigosos pulsares. Sempre levadas pelos sinais da presença daquela avançada civilização que desejavam estudar. Mas o viajante logo percebeu que havia algo estranho nos relatórios. Sua alegria inicial gradativamente foi sendo minada. As sondas não foram capazes de estabelecer comunicação com a mega-civilização. Nenhum contato.

Intrigado, o viajante decidiu analizar com calma um daqueles informes, um estudo detalhado de um sistema com 5 planetas orbitando uma estrela vermelha. A sonda havia detectado uma gigantesca estrutura artificial circulando a estrela e isso era um sinal inequívoco da presença dos avançados seres daquela galáxia. Uma análise do monumental dispositivo revelou que se tratava de algum tipo de armazenador e transmissor de energia, capaz de abastecer os vastos complexos urbanos que existiam nos planetas do sistema. Mas as sondagens indicaram que a titânica máquina não funcionava há muito tempo. E quando a sonda sobrevoou os planetas a decepção foi ainda maior: em um deles, cidades desertas, canais semi-soterrados que se estendiam por toda a superfície planetária, milhares de estruturas, todas vazias; em outro mundo, construções gigantescas foram encontradas, obras arquitetônicas realmente magníficas e de singular beleza, mas abandonadas em completa ruína. Aron não se conformou.

— É preciso fazer uma infusão completa dos dados em minha mente. — O viajante concluiu muito sério para seu diário de bordo. — Só assim poderei fazer um diagnóstico seguro da situação.

Caminhando com seu pesado traje, o viajante se dirigiu para uma cadeira que estava posicionada na borda da cúpula da nave. Sentou-se e posicionou o grande arco de elo mental para se encaixar bem rente ao seu capacete. Acionou um comando na cadeira e o processo de transferência de dados se iniciou. Sentiu uma pequena vibração no início, que depois se transformou em um tremor que percorreu todo o seu corpo. Um turbilhão de imagens surgiu simultaneamente a sua volta e Aron teve que fechar os olhos para reduzir a vertigem. E então ouviu um fluxo ruidoso, os dados ecoando dentro de sua cabeça como uma música caótica. Não era um procedimento comum inserir na mente tamanha quantidade de informação, mas Aron queria descobrir a resposta para aquele enigma o quanto antes. Quando o processo terminou, o viajante sentiu-se exausto e se ergueu com dificuldade. Com um andar trôpego, voltou para o console central da cúpula. Estava desolado.

— Terrível. — Com as mãos trêmulas, Aron sussurrou para seu diário de bordo. Vasculhou os dados em sua mente e decidiu analisar duas filmagens, as que mais o aterrorizaram.

Vislumbrou primeiro um grande anel de detritos em volta de uma estrela moribunda e deformada. Ao se aproximar, percebeu que boa parte daqueles asteróides possuíam estruturas artificiais incrustadas. Mas tudo estava destroçado, como se fossem peças desarranjadas de um todo, outrora ordenado e definitivamente grande. O viajante ainda podia sentir o calor que persistia naquele cemitério monumental, o fogo nuclear emanando das superfícies calcinadas que ainda derretiam em fissão. O padrão circular dos destroços indicava uma explosão tremenda e não natural. Até a estrela foi irremediavelmente afetada, tendo parte de sua massa arrancada pelo impacto.

Em um piscar de olhos, o viajante assistiu uma outra paisagem surgir, já em outro ponto da galáxia. Viu um planeta tão grande, que sua circunferência rivalizava com os maiores corpos estelares já catalogados. Mas esse mundo não orbitava uma estrela, vagava de forma errante como se tivesse sido arremessado violentamente de seu lugar de origem. Em um sobrevoo mais próximo, foi possível distinguir a intricada geometria de sua superfície, claramente artificial. As varreduras profundas mostraram que seu interior era oco, contendo uma vastidão de subestruturas e complexo maquinário, como se abrigasse muitos mundos em si mesmo. E quando a sonda visualizou o outro lado do objeto, obscurecido pela fraca luz interestelar, veio o choque revelador: um rasgo que se estendia por uma boa parte de sua superfície, as entranhas do planeta artificial expostas. A fenda, obviamente causada por algum raio energético, era tão profunda que por pouco não cortou aquele mundo ao meio. Era mesmo desolador.

Aquelas horrendas imagens foram demais para Aron. Não conseguia entender como uma civilização tão avançada e habilidosa poderia promover também a destruição. E a beligerância era algo que o viajante conhecia, mas em sua galáxia de origem a violência estava confinada nas civilizações primitivas, irmãs cósmicas ainda na infância de sua era espacial, e que praticamente só podiam fazer mal a si mesmas. Ele tinha muita resistência em aceitar que seres avançados poderiam ser também agressivos. E sua teimosia alimentou ainda mais sua curiosidade.

— Farei uma última investigação. — Aron falou para seu diário. — Levarei a nave até um sistema na orla exterior, um local particularmente ativo que as sondas tiveram dificuldade de estudar. Verei o que está acontecendo por lá.

A esfera fez novo salto, deixando para trás seu característico rastro esverdeado. Quando emergiu no local designado, a nave foi recebida por uma chuva de detritos. Mesmo seguro pela blindagem do casco, Aron aumentou os campos magnéticos em volta da nave para formarem um escudo protetor. Estava em uma região escura e desprovida de estrelas, mas havia uma forte assinatura radioativa ali. Deu início a uma extensa varredura e constatou que misturado às rochas haviam também destroços de objetos artificiais. Tudo contaminado por uma mistura de isótopos instáveis, seus núcleos atômicos rompendo-se e liberando energia mortal. Ele via as sobras de uma batalha inimaginável.

Obstinado, Aron direcionou a nave para o epicentro da nuvem, uma verdadeira fornalha nuclear emanando tanta radiação que os sensores falharam. A medida que a esfera era açoitada por destroços cada vez mais densos, sua luz verde se intensificou. O escudo funcionava em sua potência máxima para repelir o bombardeio de nêutrons e raios gama. E então surgiu diante do viajante o objeto que deu origem a toda aquela devastação: uma estrutura cilíndrica colossal, cujo metal emitia uma fraca luminescência azul. Sua superfície estava cheia de rasgos e perfurações, como se tivesse sido fustigada por milhares de disparos. Mas quem quer que tenham sido os protagonistas daquela batalha já estavam mortos há muito tempo. Não havia qualquer sinal de vida em meio aquele caos e nem teria como existir, tamanha a contaminação radioativa. O viajante conduziu a esfera em um sobrevoo veloz até uma das extremidades do artefato e ficou absorto com o que encontrou. A coisa possuía uma cavidade circular tão vasta que os limites de sua “boca” se perdiam de vista. Ela seria capaz de engolir um planeta inteiro. E de fato Aron assistiu inúmeros destroços sendo tragados para dentro da estrutura, que mesmo em ruínas continuava funcionando e devorando coisas. Era muito perigoso se aproximar pois sua nave poderia ser sugada também. O viajante decidiu lançar uma sonda especial, cujo revestimento reforçado fora criado para suportar as superfícies de estrelas. A medida que a sonda mergulhou, imagens do interior da garganta do monstro surgiram na tela e Aron ficou fascinado com as complexas estruturas que se sobressaíam das paredes internas do monstro metálico. Como milhares de dentes, torres pontiagudas estavam dispostas em intermináveis fileiras, numa espiral que se perdia nas profundezas da besta. A sonda se aproximou de uma dessas pontas e Aron percebeu se tratar de algum tipo de emissor de energia. Deveriam ter a função de literalmente desintegrar qualquer objeto que fosse “engolido” pela máquina. E alguns ainda funcionavam, disparando raios que destroçavam tudo que se aproximava. Aron queria continuar sua investigação, mas infelizmente a sonda acabou sendo destruída por uma das torres. Se apercebendo do perigo, o viajante foi obrigado a ir embora e fez a esfera retroceder para sair daquele local maldito.

— Adeus, devorador de mundos. — Aron falou melancólico, enquanto olhava para trás e fitava o mostro em ruínas, mas jamais saciado de sua fome por destruição.

A esfera deixou a nuvem radioativa em um instante, reaparecendo novamente no familiar ponto de chegada, nas proximidades do buraco negro. Abatido, o viajante deu uma última olhada nas estrelas para se despedir daquela galáxia morta. Então programou a nave para entrar no vórtex de luz e assim fazer o salto para sua galáxia de origem. Como teria ainda uma longa viagem, Aron decidiu matar o tempo com uma derradeira investigação. Ele vasculhou os relatórios das sondas até encontrar uma ficha que continha um estudo detalhado da anatomia e da vida daqueles contraditórios seres. O computador central da nave foi capaz de reconstituir a linguagem daquele povo perdido e descobriu também como era a aparência deles. O viajante se admirou quando viu diante de si um holograma simulando uma das criaturas. Imediatamente Aron sentiu um impulso de retirar seu traje protetor para ficar desnudo diante daquele “Irmão cósmico” há muito perdido. E assim o fez. As semelhanças eram tremendas. Além da estatura quase idêntica, ambos andavam sobre duas pernas, tinham dois braços, uma cabeça arredondada, boca… e dois olhos gentis e curiosos. Como pode ser? Ele pensou olhando os membros superiores do ser e depois fitando suas próprias mãos. Mas um abismo evolutivo os separava: aquela criatura era um organismo biológico e o povo do viajante era uma espécie auto-projetada artificialmente. Aron continuou encarando seus dedos robóticos mexerem, as juntas metálicas girarem em perfeita sincronia com os impulsos elétricos emanados por sua rede neural quântica. Ficou encarando suas mãos por muito tempo, como se quisesse se convencer daquela coincidência cósmica.

— Meu nome é Aron. E é um prazer finalmente conhecer um ser humano. — O viajante disse para o holograma que estava na sua frente.

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