Pós-pandemia

(Julia de Abreu)

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A mulher acordou no meio da noite com espasmos no peito e os olhos molhados. Houve um tempo em que isso tinha o nome de choro, quando a gente dormia enroscada e os corpos se penetravam. A isso chamavam prazer. Alguns buscavam prazer com a mesma pessoa repetidas vezes e a isso chamavam amor. Assim foi até 2020, marco do afastamento físico compulsório.

Passados dez anos da extinção do vírus letal, ainda não revogaram a proibição do contato por medo de novos vírus. O governo mantém distribuição de medicamentos para soterrar o desejo.

A mulher entupiu-se de pílulas de esquecimento, mas à noite sonhou com um corpo macio. Acordou assustada temendo que viessem ao seu encalce. Dos olhos brotaram lágrimas, o peito doeu e ela se lembrou que há tempos a isso chamavam saudades.