Cetim

(Vincent Vega)

Photo by Michael Barón on Unsplash

Alongo devagar as pernas… O corpo range e me estremeço. Sob o esforço de seus limites, a dor de cada músculo tenso me faz sorrir para meus dedos dos pés…

Lembro-me do tempo de viver, da morte, e a consciência amarga de seu desperdício chega a quase me erguer da cama… Chego mesmo a descruzar os braços, olhar o relógio e desistir. Ainda não. Penso comigo enquanto acendo um cigarro e deixo o leve torpor da fumaça desvanecer devagar todas essas velhas angústias humanas que muito bem poderiam me roçar o estômago…

Desisto de saber. Desisto das horas… E quando enfim, distraidamente rendida ao descanso, me pego pensando em como o conforto pôde se entremear assim tão fundo em meus mais recônditos desejos, estremeço de súbito. Um susto!Uma lembrança! Durante um breve instante sou arrebatada pelo contato suave com o cetim em meus lençóis. O sentir… Sempre ele. E nesse sentir, certamente o bastante. Afinal, foi essa mesma “inteligência de pele” que desde o início instruiu-me na grandiosa arte de seguir vivendo pela graça de seus pequenos toques. Lembro-me bem de meu primeiro encontro com o cetim…

Era uma quinta feira de dezembro. Ventava. O Sol da tarde já evanescia pujante enquanto centenas de tenros corpos e mentes transitavam pela Rua do Ouvidor a se esbarrar repletos de fome e de urgência… Sapatos, bolsas, pernas, saias curtas e camisas abertas. Muitos eram os desejos e, sendo assim, também eu andava por ali à toa. Me ria… Fumava… Quase distraída caminhava devagar enquanto meu olhar caçava, aqui e ali, algum lampejo de astúcia em um perdido olhar alheio… Divertindo-me aos modos dos meus percorria sem pressa mais alguns passos em meu longo caminho quando aconteceu. De repente. O abrupto despertar de minha ensimesmice pelo encontro casual com um rolo de cetim.

Custa-me precisar hoje o quando, o como… Mas o certo é que fui beijada pelo mais profundo sentimento de maciez que já havia experimentado nesta vida. Uma queda. Um suspiro… E após isso, a exageradamente longa e profunda obscurescência de todos os sentidos ante o quase inevitável ato do mergulho de minha face nua na luxuriosa trama do tecido. Êxtase… E em um arrepio, a consciência prostrada em plena rendição.  

Prontamente um vendedor qualquer aparece e me diz algo. Não lhe respondi. Mal sabe ele que o que é amável vende a si.

Cortinas, travesseiros, lençóis… Vesti tudo em cetim. Um cliente certa vez me riu do excesso, disse que era coisa de puta… Ri de volta… Anuente e indiferente. Sei bem que a medida de meu prazer é a urgência de meu conforto. E que, como todas as demais paixões, essa também deve matar, no tempo, seu cheiro de morte.

Batem à porta.