Vamos juntas

(Wellytania Thaís)

De dia era mais tranquilo, Raquel caminhava até o colégio onde trabalhava. Coisa pouca. Depois de pegar dois ônibus, ainda andava uns três quarteirões até chegar ao trabalho, o que para qualquer homem podia até não parecer muito, mas para Raquel era. Era muito porque também era para Gabriela, Letícia, Maria e todas as outras mulheres que ela conhecia. Desceu do coletivo no mesmo passo que outros jovens, crianças e idosos. Interrompeu a passagem de um deles porque estava com pressa. Por mais que tentasse, sempre beirava o atraso.

Na rua principal tinham várias pessoas indo e vindo, o que dava certa sensação de segurança. A quantidade de pessoas foi diminuindo enquanto Raquel andava. Então, na mesma proporção, ela aumentava a velocidade dos seus passos. Raquel caminhou, caminhou… Quase corria. Quando estava sozinha, a sensação era que o caminho era mais longo, uma longa linha reta que parecia não ter fim, como seus sonhos, que só cabiam em duas vidas ou mais. Era uma mulher focada, traçava planos e metas para alcançar seus objetivos, sem desviar facilmente de nada.

De repente, ela sentiu uma presença. Aqueles momentos onde a gente sente que alguém nos observa. Ouviu os passos, caminhou mais rápido, ouviu um abrir de bolsa, “Uma arma?”, pensou. Não queria olhar para trás, qualquer coisa que fizesse poderia ser entendida como uma singela demonstração de interesse, então caminhou ainda mais rápido. Sentiu os pés cansados aumentarem a velocidade e ouviu os passos de seu observador fazerem o mesmo. Podia ouvir seu coração bater mais rápido e o ar fugir de seu peito. Apertou a bolsa como quem busca segurar-se em algo ou alguém e continuou a caminhar. Estava quase lá.

Finalmente olhou para trás. Uma moça bonita apertava sua bolsa debaixo do braço. Seus longos cabelos dançavam com o vento e ela olhava para trás e para os lados constantemente. Raquel respirou aliviada. Era uma mulher! Diminuiu a velocidade de seus passos de forma que as duas pudessem caminhar lado a lado e a encarou com um sorriso sincero no rosto. A moça devolveu aquele sorriso enquanto diminuía a velocidade de seus passos, aliviada porque havia entendido o recado: você não está sozinha. Vamos juntas!

2 comentários Adicione o seu

  1. Republicou isso em Wellytania Sousae comentado:
    Fui convidada pelo Giovani Gomes do desilusoes liquidas a publicar um dos meus textos em seu site. Escolhi um dos meus contos preferidos. O “Vamos juntas” mostra um pouco da realidade de ser mulher nessa sociedade. Raquel, personagem principal, precisa caminhar alguns quarteirões até o trabalho. Mas uma simples caminhada sozinha na rua torna-se um grande risco quando se é mulher.
    O conto foi inspirado em algumas vivências pessoais minhas e de algumas amigas. E o título faz referência a uma campanha feminista que surgiu a alguns anos na internet. #vamosjuntas incentiva mulheres a oferecer apoio umas às outras nessas situações.
    Espero que goste da leitura! E não deixe de comentar, sua opinião é muito importante. 💕😚

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  2. Feliz de ver meu texto aqui. Obrigada! 💖

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