Terno vermelho

em
Photo by Phinehas Adams on Unsplash

(Jefferson Sarmento)

– A gente tem vida de trote, mas quando aparece o homi do terno vremeio, aí cê num manga do vigário não que é hora de acertá as conta. Segura esse misera aí, Baguio.

O jagunço agarrou o Juvenal pelas bolas e fez o rapaz se ajoelhar de dor. Mas Zé Baguio teve que soltar, porque a coluna já não acompanhava a idade. Chegou a estalar um nó das costas.

– Eu num fiz é nada com a fia do Seu Montinho! Eu num fiz é nada!

O rapaz agora até chorava, metido naquela calça branca com a barra já meio amarelada da poeira do sertão. O sapato então! Esse estava em pé de miséria.

– Eu juro!

– Aaaara que jurar de falso é alegria do Terno Vremeio, mundícia!

Pai de Juvenal colocou o moleque para estudar na capital e ele já nem acreditava naquelas crendices mais. Mas agora bem que queria se apegar na santinha do altar da Santa Luzia, só que achava que nem o padre ia dar guarida. Não quando a Mazinha do Estanislau tinha assumido a pendenga. Quando ela encasquetava, não tinha prova de papel passado que tirasse essas certezas de catecismo da cachola. Então o Juvenal entendeu que, vindo o Terno Vermelho ou não, ia moer naquela faca torta da cangaceira.

– Eu pedi a Joana no namoro! Pra respeitá, dona Mazionha. Pra respeitá! Eu que num ia meter ca fia do coronel!

– E ela embuchô de quem, mundícia? Do Divino? Vai nascê o mininu Jesuis de novo?

– Num é meu, dona Mazinha! Num é!

– Baguio! Mostra os bago desse fio duma égua.

O garoto arregalou os olhos. Começou a gritar aiaiai quando o jagunço agarrou o colarinho e meteu uma adaga afiada na cinta novinha que tinha comprado na cidade. O couro partiu que nem manteiga no sol. O Juvenal tentou encolher as pernas para dificultar a arriada, mas tomou um safanão e bateu de costas no chão, com as canelas presas nos braços do Zé Baguio. Com um puxão, as coisas balançaram no vento.

– Aaara… olha isso, Baguio.

– Misericórdia, dona Mazinha! O baio de cobrir as égua do coroné num tem um instrumento desse!

O Juvenal agarrou o cós da calça e ia puxar, mas a cangaceira lhe colocou a bota surrada em cima da virilha e impediu. Chegou o negoço ficar escapando pro lado do salto, retorcido que nem cobra. A mulher espiou, espiou…

– E aquela galeguinha safada aguentou foi isso, foi?

– Eu num encostei nela, dona Mazinha!

– Óia que o coroné Montinho vai querê guardá esse troféu numa compota pra por na estante de livro da sala. Vai ficá lá, que é pro zoto sabê que não se buli com gente de respeito!

O jagunço e a matadora começaram a rir, os dentes podres empesteando o pasto seco. Restou ao Juvenal fazer o juramento que lhe podia salvar a vida:

– Eu caso, dona Mazinha! Caso!

Ela apertou mais a bota.

– Num tem casório porcaria nenhuma, seu mundícia! Cumpadi Montinho qué seus bago pra jogá pros cachorro! E vai carpi um coro naquela sirigaita pra aprendê a abri as perna pra qualquer pangaré da cidade. Baguio!

– Eu, dona Mazinha.

– Levanta de riba embaxo que eu quero cepá a serpente.

E o jagunço obedeceu, sentindo a repuxada na base das costas. Mas aguentou firme, enquanto Mazinha puxava o facão de lâmina torta. Fazia quase um S e cortava até o vento em dois.

– Rodiei, rodiei! – ela começou a cantar. – Rodiei no seu altar! Rodiei, rodiei, que é pra modi ti chamá!

O moleque começou a berrar. O jagunço repetiu os versos da matadora, vendo que ela segurava sem nojo nas coisas do rapaz. Esticou como se medisse e levantou a faca, começando o segundo verso.

– Rodiei, rodiei! Rodiei fogo no espeio! Rodiei, rodiei, pra chegá Terno Vremeio…

Encostou a lâmina na base do pênis. Juvenal gritava e babava de cabeça para baixo. Então, uma revoada de urutaus assustou a cangaceira. Subiram piando aqueles gritos de agouro, um bando deles. Mazinha deu passo para trás. O jagunço soltou o mequetrefe. Juvenal rolou desengonçado para uma moita, bunda branca abrindo aleluia pra lua.

– Que foi isso, Baguio!?

A resposta veio do matagal, de onde piaram os urutaus. Baguio arregalou os olhos e caiu sentado. Depois, saiu catando cavaco para correr como podia, sem olhar de novo.

Mazinha ficou se benzendo o pai-do-fio-do-esprito-santo-amém sem parar, sem fugir. Lá do mato veio aquele homem – devagar, pisando leve o caminho, sem levantar poeira pra não sujar a barra da calça vermelha.

Chegou bem perto, olhou dentro dos olhos da afilhada.

– Chamô, eu vim.

Mazinha tremia. Nem respirava direito.

Terno Vermelho pegou a faca de fatiar toucinho que a cangaceira quase derrubava e mirou o fio. Passou na língua. Cortou em duas e as pontas serpentearam. Depois, olhou pro Juvenal – o rapaz se borrava, enrolado com as calças meio arriadas, meio cobrindo o colo.

– Encomenda pra mim, Mazinha?

A matadora gaguejou.

– É sim, sinhô.

Terno Vermelho balançou a cabeça. E meteu a faca curva no bucho da matadora. Mazinha não gritou. Arregalou os olhos e sentiu as tripas vazando enquanto o diabo lhe cobrava os erros. Terminou de morrer estrebuchando. O diabo limpou a lâmina no braço do terno e se virou pro Juvenal. Meteu a mão no bolso. Tirou um aliança. Jogou pro rapaz, o ouro queimando no ar.

– E vosmecê se arranque pra casa do coroné. Leva essa prova do meu apreço. E diz praquele infeliz que não toque na menina que a cria tem é pai. Ê-ê-ê-ê.

Juvenal olhou para a aliança. Quando levantou a cabeça outra vez, o diabo estava a meio palmo de sua fuça.

– Suncê se apega com ela. Pode de cê até na igreja. Mas olhe que num vai tocá nunca na carne. Nem na criança.

O Juvenal, que nunca tocou na menina, mas que queria porque quis, largou de querer na hora. O Terno Vermelho meneou devagar e foi se levantando. Virou-se e caminhou sertão adentro, assoviando a reza da Mazinha.

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