Presságio ao povo da onça

em

(Giovani Gomes)

Photo by Sean k.q on Unsplash

Sair para caçar era o que eu mais gostava de fazer, normalmente ao lado de Longas Garras, que, entre seus chiados estridentes, sempre encontrava tempo para sorrir e brincar. Mas, naquele dia, até seus sorrisos estavam tímidos, porque ficou tarde e não conseguíamos encontrar nada. Ela me olhou através da fogueira, ponderando.

— Hum… É. Já que não encontramos nenhum pequeno animal, acho que chegou a hora – disse, vendo em meus olhos fendidos a resposta que eu não queria dar.

— Vamos voltar. Quem sabe, encontramos um suaçuetê na mata — era minha resposta, repetida várias vezes, mas nossos corpos respondiam o oposto. 

Ê, saudade! Lembro-me bem da sensação de segurança quando ela estava comigo, e que as árvores e plantas, ainda que dificultassem alguns caminhos, sempre eram aliadas. Ao amanhecer, nossos corpos e nossas lanças já se moviam, descendo barrancos e escalando árvores e, farejando, chegamos ao covil, que estava vazio.

— Apê! É aqui. Ele está por perto. 

Foi a primeira vez em que vi o sorriso de Longas Garras sumir e a última em que minhas mãos tremeram diante de uma presa. Estávamos prestes a confrontar roncoveloz, o animal com o qual livraríamos a nossa aldeia da fome. 

A alguns metros dali, finalmente, o gorgolejo, provavelmente por ter sentido nosso cheiro. Mal enxerguei quando a lança de Longas Garras assoviou por cima de minha cabeça e atingiu a presa, fazendo-a guinchar e fugir. Corri. No início, com as pernas bambas e o suor frio se misturando ao calor da perseguição, com Longas Garras sempre adiante, usando os atalhos da floresta para atocaiar o danado. Lancei uma corda que derrubou-o ao chão, e ela atravessou o pescoço dele com a faca, precisa como sempre. Logo, roncoveloz seria parte de mim e dela, de todos os nossos, mas, antes que pudéssemos retornar, houve um segundo encontro, porque diante de nós e de nossa presa surgiu um homem que, em princípio, achei ser uma entidade – mas era homem, o primeiro entre todos os que viriam, recém-chegados do mar.

Longas Garras rugiu e o intruso recuou, dizendo palavras selvagens que não podíamos compreender, e, então, aconteceu pior do que qualquer pesadelo que eu pudesse ter: o ser respondeu à nossa presença com violência. Mas ela retribuiu, furiosa, e os dois se atracaram diante de mim, rolando pela relva até atingirem uma árvore próxima. Foi quando decidi que não tremeria diante do estranho, e minha lança varou o tronco macio, espalhando aquele sangue alienígena, porém, vermelho como o nosso. 

Naquele mesmo dia, a aldeia celebrou com um banquete e, pela primeira vez, a carne deles ardeu no fogo. Roncoveloz foi apenas o aperitivo, porque ali entenderíamos a tragédia que a chegada daquelas criaturas nos traria. Eu não veria mais Longas Garras sorrindo, e a caça deixou de ser divertida. A carne humana, sempre amarga…

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